quinta-feira, 3 de Maio de 2018 12:28h Portal Gazeta do Oeste

Coluna Ômar Souki

Um sentido para a vida

Ômar Souki

 

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl conseguiu sair com vida de um campo de concentração nazista. Resistiu aos maus tratos, torturas e humilhações e manteve a esperança. Verificou que, mesmo sob as mais adversas circunstâncias, é possível manter a fé. Ele tinha um desejo ardente de sair com vida daquele inferno. Mais do que isso, tinha uma visão do que queria fazer depois daquela terrível experiência. Desejava reencontrar-se com a sua esposa e escrever sobre a liberdade de escolha que o ser humano tem, mesmo quando submetido ao mais profundo sofrimento. Observou que algumas pessoas conseguiam superar a dor e ter compaixão dos mais fracos. Guardavam um pouco do seu próprio alimento para oferecer aos mais necessitados.

Como dominar a fome, a humilhação, o medo e a profunda raiva das injustiças vividas em um campo de concentração? Como encontrar um sentido para a vida em condições tão absurdas? Frankl propõe que o ser humano pode encontrar significado na dor, pois não existe vida sem dor. Se a vida tem propósito é porque há também um significado na dor e na morte. Cada pessoa deve descobrir por si mesma um significado para a vida e aceitar a responsabilidade pela sua existência. Escreveu que, se a pessoa tem “para que” viver, pode suportar quase qualquer “como”. No campo de concentração tudo conspirava para que os prisioneiros perdessem o controle. De repente, todos os objetivos comuns da vida são desfeitos. A única coisa que lhes sobra é o que Frankl chama de “a última liberdade humana”. E o que é essa liberdade? É a capacidade de escolher qual será a nossa atitude diante das circunstâncias.

Somos continuamente bombardeados por estímulos externos. São as coisas que os outros pensam, falam ou fazem. Além disso, temos que lidar com os desafios em casa, no trabalho e na escola. As demandas são inúmeras, mas a forma como iremos responder é de responsabilidade nossa. Não devemos retornar agressão com agressão. É preciso criar um espaço entre os estímulos e a nossa resposta. O maior desafio é responder ao ataque com amor. Nossos desafios do dia-a-dia podem parecer insignificantes diante do que Frankl teve de enfrentar, mas as conclusões que ele chegou podem nos ajudar na luta cotidiana.

Frankl observou que os prisioneiros que conseguiam manter o autodomínio eram aqueles que tinham um forte senso de missão ou de fé religiosa. Os que tinham fé permaneciam voltados para o julgamento divino e passavam por cima das misérias do momento. Havia também aqueles que tinham o firme propósito de se reencontrar com parentes fora do campo de concentração. O importante era ter uma missão, uma visão de futuro, que desse sentido a circunstâncias desprovidas de sentido. Uma vez que a pessoa encontrasse uma razão para viver, também encontraria força para suportar os desafios. O psiquiátra encontrou três razões para viver: a sua fé, a sua vocação e a esperança de reencontrar a sua esposa. Como ele tinha razões para viver, conseguiu suportar a dor e sair com vida.

Escreveu: “Um pensamento me traspassou: pela primeira vez em minha vida enxerguei a verdade tal como fora contada por tantos poetas, proclamada por tantos pensadores. A verdade de que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que uma pessoa pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia e o pensamento podem transmitir: a salvação do ser humano é através do amor e no amor. Compreendi como um homem, a quem nada foi deixado neste mundo, pode ainda conhecer a bem-aventurança, ainda que seja apenas por um breve momento, na contemplação da sua bem-amada. Numa condição de profunda desolação, quando a pessoa não tem mais como se expressar em ação positiva, quando sua única realização pode consistir em suportar seus sofrimentos da maneira correta, de maneira honrada, mesmo em tal condição, a pessoa pode, através da contemplação amorosa da imagem que traz de sua bem-amada, encontrar a plenitude. Pela primeira vez em minha vida, fui capaz de compreender as palavras: ‘Os anjos estão imersos na perpétua contemplação de uma glória infinita’”.

Cada pessoa tem a responsabilidade de responder a seguinte pergunta: “O que é que eu devo fazer e que não pode ser feito por ninguém, absolutamente ninguém mais, exceto por mim mesmo?”.

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