quinta-feira, 10 de Maio de 2018 15:27h Portal Gazeta do Oeste

Coluna Ômar Souki

Tudo nos pertence

Ômar Souki

 

Tudo nos pertence e nada nos pertence. Essa frase, a princípio, não faz sentido. Mas, se pensarmos bem, veremos que, para vivermos uma vida saudável, devemos agir como se tudo fosse nosso. Devemos também orientar nossos pensamentos, atitudes e ações pela noção milenar de que nada nos pertence. Uma frase aparentemente contraditória contém profunda sabedoria.

Por que tudo nos pertence? Por onde quer que você e eu andemos no mundo, o ar nos pertence. Também o espaço nos pertence. É obvio que os espaços públicos nos pertencem. Mas o que dizer dos espaços privados? Nem todos nos pertencem, mas ao adentrarmos um espaço que pertence a outra pessoa devemos agir com o mesmo zelo com se fosse nosso. Vou exemplificar. Neste momento estou em um hotel na cidade de São Paulo. Este hotel não me pertence, mas eu me comporto como se fosse meu. Uso as suas instalações com o mesmo cuidado e carinho como se eu estivesse em minha própria casa, assim, ao ver lixo no chão, eu apanho, e se perceber que alguma lâmpada não funciona, mesmo que seja no corredor, trato de avisar à gerência. Enquanto estiver aqui, ajo como se este local fosse meu. Outro exemplo, nosso local de trabalho não é nosso, mas, para termos um bom desempenho é fundamental que o consideremos como se fosse.

Por outro lado, mesmo as coisas que mais identificamos como sendo nossas, de fato, não o são. Vamos começar com um exemplo extremo, o nosso corpo, aquilo que temos de mais caro, não nos pertence. Chegará o dia em que não mais o possuiremos. Isso até parece óbvio, mas, na maioria das vezes agimos como se fossemos viver para sempre. Colocamos demasiada ênfase no possuir isto ou aquilo, em querer mais e mais e mais, sem a menor preocupação com os efeitos que o nosso querer possa ter nas outras pessoas e na natureza. Cada ação egoísta visando apenas o nosso bem estar pessoal, em detrimento do coletivo, grita para o mundo que estamos agindo como se tudo nos pertencesse, quando, de fato, nada nos pertence.

Quais são as implicações práticas desse raciocínio? Mesmo que não o explique dessa maneira, o mundo empresarial estimula comportamentos que refletem essa filosofia. Robert Townsend disse:  “tome cada decisão como se fosse o dono da empresa”.  No hotel Ritz Carlton o lema é: “Somos damas e cavalheiros servindo a damas e cavalheiros”.  Nesse hotel cada um dos colaboradores é motivado a cultivar a liderança pessoal, não importa qual seja sua posição na empresa. No livro O monge e o executivo, James Hunter, relata que na Mazda é proibido perder a compostura em público. O gerente que é visto xingando e brigando com um colaborador é sumariamente demitido. Lá não se admite briga em público. Portanto, algumas empresas já compreenderam que o segredo do sucesso nos negócios é ter colaboradores que ajam como se fossem donos. Algumas, dentre as mais bem sucedidas, como a Microsoft, distribuem seus lucros entre os funcionários. E, outras, como a Starbucks Coffee encorajam seus colaboradores a participarem de ações voluntárias em benefício de suas comunidades.

Como agir, então? Como se tudo nos pertencesse ou como se não fossemos donos de nada. Qual seria o comportamento adequado? Depende da situação. Ao usar algo alheio, devemos fazê-lo como se fosse nosso. E ao usarmos algo que nos pertence, é importante saber que só será nosso por determinado tempo. Enfim, precisamos ter uma visão relativa das coisas. Coisas que muitas vezes achamos que não são de nossa responsabilidade,  são – e aquilo que temos certeza que possuímos, só o temos por um breve espaço de tempo.  

 

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