A TRAGÉDIA QUE PASSOU EM BRANCO

Tantas tragédias se sobrepuseram nos últimos dias que algumas vidas ceifadas acabaram não recebendo a necessária atenção.

No meio da desgraça irresponsável de Brumadinho, da ainda mal explicada negligência no Ninho do Urubu e da chocante morte do jornalista Ricardo Boechat, se deu também outra barbaridade, muito menos noticiada.

A polícia militar do Rio de Janeiro fez uma operação nos morros do Fallet, Fogueteiro, Coroa e Prazeres. Treze pessoas foram mortas.

Eram traficantes! – bradam alguns.

Sei lá se tratavam-se de criminosos ou santos, mas mesmo que fossem bandidos puros há que se dizer que não existe previsão de pena de morte na legislação brasileira. Muito menos há tribunal com julgamento instantâneo sem a presença de promotores, magistrados ou advogados.

Consta que algumas das vítimas foram torturadas, esfaqueadas, mutiladas.

Sem querer ser irresponsável, mas longe de exercitar a omissão, parece-me que a onda do “bota pra foder” tem suas digitais nessa ação bárbara. Quando o governador do Rio diz que pretende autorizar a matança geral e deputados são eleitos sob o lema do “bandido bom é bandido morto”, parece óbvio que a violência aumentará.

Nossos policiais matam muito e morrem muito. Incentivar a violência das forças do Estado não parece boa política, conforme comprovam os números: a criminalidade não cai à medida que bandidos ou suspeitos são assassinados.

Mirar a cabecinha, como disse o governador, é expressão que incentiva chacinas praticadas por agentes oficiais. As consequências são apenas sanguinolentas. Matar um bandido enquanto dez outros são plantados ao lado é má política, além de se tratar duma atitude típica de povos atrasados.

© 2009-2019. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.