CENSURA NUNCA MAIS

Não sei se foi queda em ponta de pedra ou marretada direta que causaram impacto na lustrosa careca de Alexandre de Moraes, mas a pancada foi forte o suficiente pra tirar Sua Excelência do prumo.

Pra começo de conversa, a decisão de censurar a Revista Crusoé é inócua. Melhor dizendo, ela foi capaz de produzir efeito contrário ao pretendido pelo Ministro. Será que Dr. Moraes não está a par da forma como a informação circula no ano da graça de 2019? Poucos minutos depois da divulgação da decisão, eu recebi em formato PDF, via WhatsApp, a revista Crusoé inteirinha, enviada por três pessoas diferentes.

Em tempos de internet massificada, censura vira propaganda. E é bom que seja assim, apesar de o mesmo meio ser tão usado para divulgação de boatos.

O mais grave do caso, porém, é o ato de tentar calar um jornalista. Não estamos falando de um site apócrifo nem de malucos fanáticos feito “Mamãe Falei” à direita ou Paulo Henrique Amorim à esquerda. Crusoé tem lado político, mas isso está exposto em seu editorial e, até então, não consta que divulguem boataria.

Calar o jornalista é mais um golpe nessa nossa democracia frágil, sofrida. Não custa lembrar que a história brasileira é, essencialmente, anti-democrática. Nosso período de liberdade constitui exceção, embora as gerações mais jovens (a partir da minha, que nasci em 1978) tenham um sentimento de que sempre foi e sempre será assim, liberdade plena.  Vejamos uma linha do tempo pra ilustrar o que digo, a partir da Proclamação da República:

  • 1889 – 1930: período sem eleições presidenciais ou com eleições bastante restritivas
  • 1930 – 1945: ditadura de Getúlio Vargas, que assume a presidência num golpe que impediu a posse do presidente eleito
  • 1946 – 1950: Governo Dutra, presidente eleito. Eleições com restrições
  • 1950 – 1954: Governo Getúlio Vargas, presidente eleito
  • 1055 – 1960: Governo JK, presidente eleito.
  • 1961 – 1964: Governos Jânio Quadros e João Goulart, eleitos
  • 1964 – 1985: Ditadura militar
  • 1985 – 1989: Governo Sarney, presidente eleito sem voto popular
  • 1989 – atual: Presidentes eleitos

 

Diante de tamanha instabilidade histórica, não é bom que o órgão máximo da Justiça Brasileira tente impedir a circulação de reportagem jornalística. A perseguição a notícias falsas é fundamental mas não se resolverá o problema com canetadas. Gasta educação e formação do povo. Bloquear boatos de internet por sentenças judiciais é equivalente à guerra contra as drogas: briga perdida.

É necessário buscar soluções inteligentes e, no mínimo, baseadas no Estado Democrático de Direito. Censura nunca mais, Excelências.  

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