ESTUPRO NO QUARTO AO LADO

É terrível ler o relato de Damares Alves, futura ministra de Mulheres, Família e Direitos Humanos. Um horror puro, do qual destaco uma trecho:

“Eu estava dormindo no meu quarto, que era ao lado do dos meus pais. Estava sonhando que segurava uma coisa quente e, quando, abri os olhos, estava segurando o pênis desse homem [o pastor]. Senti pavor, medo e dor. Da primeira vez que me estuprou, ele me colocou no colo, olhou na minha cara e disse: 'Você é culpada, você me seduziu, você é enxerida'.”

Ela conta que sofreu abusos de um pastor durante dois anos quando era criança. Depois, foi abusada por um outro religioso. Aos dez anos pensou em se matar.

Mariana Godoy, jornalista, foi outra que esta semana relatou um fato que preciso trazer à conversa. Certa vez um homem tentou arrasta-la para local ermo. Ela conseguiu fugir e pedir socorro. O homem foi preso. Dias depois, na audiência, o advogado do agressor perguntou à vítima:

“Que roupas vocês estava vestindo?”

O advogado – prontamente repreendido pelo juiz – tinha a intenção de transferir a culpa para a vítima.

As histórias dessas mulheres trazem à baila dois tabus sexuais da nossa sociedade e, a fim de evitar que elas continuem se repetindo – pois é assim que funciona -, precisamos falar abertamente a respeito.

Os estupros de Damares Alves aconteceram dentro de sua própria casa e foram praticados por pessoas da confiança da família, debaixo da barba dos pais dela.

E se a pequena Damares houvesse recebido educação sexual na escolinha, será que teria se mantido calada ou optaria por relatar os fatos para os professores ou os pais? Nunca se vai saber, mas é simples concluir que a chance de que ela reagisse seria muito maior se fosse orientada a respeito.

A culpabilização da vítima conforme as roupas que usa ou os locais que frequenta é desmentida pelas estatísticas. Comentaristas de portal são mestres em dizer que as mulheres “dão causa aos ataques” por usar roupas curtas ou andar sozinhas na rua. Dados do Ministério da Saúde informam que 69% dos abusos contra crianças aconteceram dentro de suas próprias residências e 37% foram praticados por familiares (FONTE).

Ora, vejam só: sete em cada dez crianças abusadas sofrem a barbaridade dentro de suas casas. Portanto, só posso concluir que, ao contrário do que muita gente boa prega por aí, é absolutamente necessário que eduquemos sexualmente nossos pequenos.

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