INIMIGO IMAGINÁRIO

Não me parece alvissareiro que o governo Bolsonaro comece atacando inimigos imaginários. A tática é inteligente para a manutenção de um clima de medo que, em última análise, pode sustentar governantes fortes e centralizadores.

Desconheço se essa é a intenção do novo presidente, mas seu discurso de posse e as manifestações de seus principais aliados e apoiadores indicam que, ao contrário das afirmações dos próprios, o mandato vem carregado de ideologia. Vejamos alguns fatos que parecem confirmar essa impressão.

Ao mesmo tempo que promete “tirar o viés ideológico das relações internacionais”, o presidente desconvida determinados Chefes de Estado para sua cerimônia de posse. “Não são países democráticos”, disse a respeito de Venezuela e Nicarágua. Verdade. Mas então por que China e Arábia Saudita foram convidadas?

No discurso de posse, uma mistureba do suco que o levou à vitória: acabar com “ideologia que favoreceu bandidos” (qual?), “nossa bandeira jamais será vermelha” e pregação pelo “fim do socialismo e do politicamente correto”.

Que socialismo? Em que época da nossa história o Brasil foi socialista ou sequer caminhou nesse sentido? É muito importante colocar os pingos em seus devidos “is”. Política de assistência social ou de redução da desigualdade não é coisa exclusiva de país socialista. Aliás, entre os países que as praticam largamente  estão os maiores capitalistas do planeta como a Alemanha, Suíça, Finlândia e os próprios Estados Unidos.

Logo de largada, o Ministro da Educação acabou com a secretaria de diversidade. Segundo apuração da Folha de S. Paulo, o objetivo é “eliminar a discussão a respeito de direitos humanos, étnico-raciais e a palavra ‘diversidade’”.

Fico na dúvida se Bolsonaro de fato acredita no perigo comunista, no “kit gay”, na lenda da mamadeira de piroca ou se apenas usa tais fantasmas para aterrorizar mal informados.

 

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