NEM SÓ DE NÚMEROS VIVE O HOMEM.

Para cientistas políticos, o governo chileno não compreendeu o impacto que os altos níveis de desigualdade e a precariedade do emprego tiveram na sociedade”.

Essa manchete não é de nenhum blog opinioso, mas sim do jornal Valor Econômico do dia 21 de outubro de 2019. Num exercício fácil de comparação, podemos imaginar o mesmo destaque, no mesmo sentido, em 2050, referindo-se ao Brasil.

É simples explicar. Há uma ala de economistas brasileiros – muita gente boa, inclusive – que, há anos, defende a repetição, aqui, do modelo chileno de previdência pública. Que maravilha, as contas vão bem! Paulo Guedes, nosso Ministro da Economia, é o maior representante da categoria.

Ocorre que a vida, com todas as suas variáveis que vão desde o econômico ao psicológico, é muito mais complexa do que os resultados apresentados por uma calculadora. A calculadora nos garante que, se você ganha salário mínimo e não gasta nada durante 30 anos, será milionário (a juros de 0,5% ao mês, terá juntado R$ 1,004 milhão).

O foda é que a calculadora não sabe que a gente precisa comer, estudar, cuidar dos filhos e até mesmo relaxar. Em 1984 as calculadoras chilenas sabiam que os contribuintes de então seriam os aposentados de 2019 e a reforma daquele tempo garantiria o futuro daquela gente. As máquinas, porém, não previram que os beneficiários das aposentadorias de trinta anos depois estariam relegados à miséria, quase todos recebendo menos do que o mínimo legal.

O mundo todo – embalado pelos cálculos dos economistas – aplaudiram o Chile desde então. Hoje, a população famélica vai às ruas em desespero. Onze cidadãos morreram nos protestos do fim de semana passado.

Matemática e tecnologia não são suficientes pra prever, programar e assimilar a multiplicidade de opções da vida. Considerar apenas os números em reformas trabalhistas, judiciárias, previdenciárias e outras é abrir mão da complexidade do ser humano ou, em palavras mais diretas, trata-se de burrice mesmo e garantia de fracasso.  

Os números do Chile dizem que tudo vai bem, embora os velhinhos estejam morrendo de fome. Similarmente, temos a celebrar no Brasil a redução da quantidade de ações na Justiça do Trabalho, embora nada indique que há menos violações de direitos dos trabalhadores. Por exemplo e, apenas, por exemplo...

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