O PREÇO DE UNS CLIQUES

Embora relativamente bem sucedido e feliz na minha profissão, tenho duas frustrações profissionais na vida: não ter me tornado biólogo nem jornalista.

A insatisfação de não ter seguido a biologia é parcialmente reduzida com meus mergulhos marinhos e com a relação que mantenho com os animais. Meu desencanto em não ter seguido o caminho do jornalismo, de certa forma, vem sendo reduzido desde 1998 quando comecei a escrever para a Gazeta Paraminense até hoje, quando transcrevo minhas besteiras no G37.

E sobre o jornalismo, certos fatos me levam a importantes questionamentos como, por exemplo, a respeito dos limites. Deve o profissional da notícia ignorar qualquer limite para publicar a verdade?

Apresentarei minha opinião ao  final da coluna. Vamos, primeiro, a um exemplo recente e forte.

Às 13h36 da última segunda-feira a revista Veja noticiou via Twitter: “Jornalista Ricardo Boechat cai de helicóptero e morre”. No texto completo, pouquíssima informação, o que demonstrava a pressa em dar o furo.

O grupo Band só deu a notícia uns vinte minutos mais tarde. Por ordem da diretoria, ninguém falaria nada no ar antes que a família fosse comunicada.

Toda a imprensa respeitou a posição da Band, mesmo tendo posse da informação e mesmo sem qualquer pedido da Band. Globo, Record, SBT, UOL e demais sites de notícias não se manifestaram antes que a Band publicasse e, portanto, houvesse certeza de que os familiares do jornalista estivessem avisados em primeira mão.

Penso que o jornalismo não pode sofrer restrições nem se auto cercear quando o interesse coletivo supera o privado. Não me parece que fosse esse o caso. É óbvio que os sentimentos da “doce Veruska”, de suas duas filhas menores e dos quatro outros filhos de Ricardo Boechat valiam, naquele momento, muito mais do que a curiosidade pública.

Considero, portanto, absolutamente bárbaro que a Veja tenha feito questão de sair à frente na divulgação da morte de Boechat. Até porque isso não lhe valeu nada, uma vez que o público percebeu que seu avanço foi irresponsável e desnecessário. Parabéns a todos e envio um chute na bunda de Veja – mais um dos tantos que venho lhes devotando desde 1996.

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