POR QUE TRIPUDIAR SOBRE O CADÁVER DE MARIELLE?

Quando a vereadora Marielle Franco foi morta, imediatamente surgiram caminhões de notícias falsas trafegando pelas estradas da Internet. A maioria das mentiras turbinadas por robôs nas redes sociais tentavam justificar o crime, colocando a vítima na posição de culpada. Um tweet do deputado Alberto Fraga de março de 2018 resume o que se falou naqueles dias:

Conheçam o novo mito da esquerda, Marielle Franco. Engravidou aos 16 anos, ex esposa do Marcinho VP, usuária de maconha, defensora de facção rival e eleita pelo Comando Vermelho, exonerou recentemente 6 funcionários, mas quem a matou, foi a PM.

Sou chato e me irrito quando topo com português horrível de gente que tem condições financeiras de aprender o básico do idioma, então logo de cara acho um absurdo as “trupicadas” linguísticas do deputado federal. Mas isso é de menor importância diante do fato de que, numa só tweetada, Alberto Fraga abraçou grande parte das mentiras imediatas ao homicídio.

A desembargadora Marília Castro Neves também soltou sua saraivada de barbaridades:

A questão é que a tal Marielle não era apenas uma “lutadora”; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho (...). Ela, mais do que qualquer pessoa “longe da favela” sabe como são cobradas as dívidas pelos grupos entre os quais ela transacionava. Até nós sabemos disso. (...) jamais saberemos ao certo o que determinou a morte da vereadora mas temos certeza de que seu comportamento, ditado por seu engajamento político, foi determinante para seu trágico fim. Qualquer outra coisa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro.

Preciso ressaltar pra não deixar você com dúvidas: as afirmações acima, ambas desvairadas, carregadas de preconceito, precipitadas e asquerosas foram proferidas por um Deputado Federal e por uma Desembargadora. Desembargadores são os juízes de segunda instância, ou seja, os caras top da carreira. Por aí você pode imaginar como é que notícias falsas flanando livremente afetam a opinião do povo em geral. Tenho amigos que embarcaram nessa onda, culpando a vítima pelo próprio homicídio.

Vamos analisar alguns pontos das falas do deputado Alberto Fraga e da Desembargadora Marília Castro Neves:

  1. Engravidou aos 16 anos. Não é verdade, foi aos 19. Porém, a “acusação” traz uma carga de preconceito contra o negro pobre. A quantidade de meninas jovens grávidas entre a população brasileira de baixa renda é grande e isso não é culpa delas, mas do abismo social que separa o mundo pobre do rico. Taramelar que tal pessoa, especialmente se pobre e negra, engravidou jovem e solteira é apenas reforçar preconceito.
  2. Ex esposa do Marcinho VP. Referindo-se ao famoso traficante Marcinho VP, o deputado visava colar a imagem da vereadora morta ao crime. Marielle jamais foi esposa ou namorada de Marcinho VP. Mais uma vez é importante destacar a carga de preconceito. E se fosse verdade? Ex-mulher de traficante merece ser morta à emboscada?
  3. Eleita pelo comando vermelho. Tal acusação está nas publicações de ambas as autoridades e trata-se de mentira absoluta. Não há qualquer registro formal ou informal de envolvimento dela com organizações criminosas. Quatro em cada dez votos que recebeu para vereadora vieram da Zona Sul do Rio de Janeiro.  
  4. Ela, mais do que qualquer pessoa longe da favela, sabe como são cobradas as dívidas. Até nós sabemos disso. Aqui a Desembargadora enfatiza a notícia falsa do vínculo de Marielle com bandidos e, ainda, golpeia com o machado do preconceito para a seguir limpar as mãos na seda fina de seu vestido. A favelada sabia muito bem com quem se metia. “Até nós sabemos”. Nós, os não favelados, os privilegiados, os limpinhos e cheirosos sabemos disso, imagina “eles”.
  5. Um cadáver tão comum quanto qualquer outro. O valor da vida não é medido por nenhuma fórmula, moeda ou teoria. Assim, todas as vidas são iguais. Ocorre que, quando um representante do povo é assassinado em via pública, todo o resto da população passa a sofrer de um risco muito maior. Quando se animam a cometer um crime que obviamente terá enorme repercussão, matar qualquer um de nós se torna muito mais simples.

Assim, podemos dizer que no caso Marielle temos dois pontos-chave:

  • Notícias falsas vinculando a vereadora a criminosos, a fim de matar no nascedouro aquela tese que viria a ser comprovada futuramente: milicianos e policiais eram os responsáveis pelo crime;
  • Reforço violento do preconceito contra pobres e negros. Estruturada pelas notícias falsas, a conclusão do Deputado, da Desembargadora e de alguns meus amigos foi: Marielle era uma preta favelada, engravidou aos 16 anos e foi casada com traficante. Nesse contexto, assumiu o risco de tomar uns pipocos na cabeça a qualquer momento.

Só acho que o assassinato cruel de Marielle deveria ser condenado por todos, seja lá qual for sua ideologia política. Tanto que gente muito boa de pensamento de direita não faz coro com gente feito o Deputado e a Desembargadora referidos neste texto.

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