PROMESSA DE CAMPANHA.

Por mal dos pecados – como se diz por aí – calhou de acontecer o terrível sequestro na ponte Rio-Niterói um dia depois de eu me posicionar, neste espaço, sobre a política violenta do governador Wilson Witzel.

Um jovem de vinte anos, que sofria de problemas mentais, sequestrou um ônibus com mais de trinta passageiros. Portava garrafas com combustível, faca e arma que, posteriormente, descobriu-se ser de brinquedo.

Após horas de negociações – período em que o sequestrador, segundo as vítimas, mostrava-se interessado na repercussão do caso e os tranquilizava afirmando que não os faria mal, desejava apenas “entrar para a história” –, o criminoso foi atingido pelo atirador de elite que o mantinha sob sua mira. Chegou morto ao hospital.

Diferente do Governador do Rio de Janeiro, incentivador do massacre aleatório de qualquer um com cara de suspeito, eu penso que apenas em casos extremos como esse o Estado deve promover golpes drásticos, sacrificando uma vida em estado de crime em prol de outras tantas, suas vítimas. Pelo visto, naquela situação do dia 20 de agosto de 2019, não havia alternativa.

A dramática história guardava para epílogo a grotesca cena do Governador celebrando o tiro fatal como se fosse gol do seu time em final de campeonato. Celebrava, empolgado, o cumprimento de sua principal promessa de campanha: snipers “atirando na cabecinha”.

Reafirmo: para mim, no caso específico, a atuação do policial foi correta. Porém, a celebração entusiasmada de Wilson Witzel é a cara do fracasso humano na Terra. Que tipo de espírito se alegra com a atuação do atirador de elite, se essa é apenas o extremo, a atuação final depois de toda negociação possível? Se o Estado só pode matar em situações de drama total, não há motivos para alegria, muito menos para saltos, aplausos e abraços. O momento seria de consternação: “falhamos como Estado ao prevenir o crime, agimos excepcionalmente para corrigir nossa falha, mas não nos alegramos com isso.”

Confesso que já celebrei a morte de pessoas, isso lá com meus vinte e poucos anos. Felizmente, a maturidade me ensinou que tal atitude é bárbara, abjeta, inaceitável. Witzel é bem mais maduro e experiente do que eu, no entanto transformou a morte em promessa de campanha e faz de tudo para cumpri-la. 

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