TIROS SILENCIOSOS

Talvez seja exagerado responsabilizar a teoria do “bandido bom é bandido morto”, assim como a galera a favor do “atire primeiro, pergunte depois” pela morte de Evaldo dos Santos Rosa.

Músico, Evaldo foi sacrificado sob uma saraivada de tiros expedidos por homens do Exército Brasileiro. Oitenta balas atingiram o carro. Ele dirigia rumo a uma festinha e tinha como passageiros alguns familiares.

Inocente morto. Dois outros feridos.

É claro que não há uma conexão direta entre o discurso de ódio que venceu as eleições em vários locais do Brasil e fatos como esse. Mas parece-me óbvio que, quando as próprias autoridades incentivam “mirar as cabecinhas” – palavras do Governador do Rio de Janeiro –, qualquer maluco encontra nisso a justificativa para fazer suas merdas.

Mais grave ainda é o velhaco silêncio de tanta gente que deveria, de imediato, ter se manifestado diante do fato. O governador do Rio a princípio disse que não cabia a ele falar sobre a barbaridade. Sob pressão, acabou emitindo lacônica lamentação QUATRO DIAS depois da execução de Evaldo.

O Presidente da República só resolveu falar CINCO DIAS após a desgraça. E não encontrou palavras para criticar a violência nem sequer para confortar a família. Seu manifesto foi na linha “fatalidade”.

Não há fatalidade nem acaso nem se pode arguir ausência de responsabilidade quando agentes do Poder Público executam uma pessoa com mais de oitenta tiros. Mais pessoas não morreram por mero acaso.

A morte de Evaldo está na conta do Exército sim, pois seus agentes praticaram o crime. Além disso, a gente pode acrescentar na acusação os representantes oficiais que incentivam o massacre geral, o tirambaço ao bandido antes mesmo de saber se, de fato, tratava-se de um ladrão ou de um simples senhor Evaldo.

© 2009-2019. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.