A loira do metrô.

Fim de tarde, início da noite, no metrô. Ao contrário das manhãs, onde as caras estão quase acordadas, pouco maquiadas e bem cansadas (antes mesmo de enfrentar o dia que as espera), agora o barulho é grande e a diversidade de assunto e de pessoas me chamou a atenção. Talvez por eu estar longe desse dia a dia (muito estranho não poder mais colocar hífen nesses casos!) enfadonho, morando numa cidadezinha pequena, charmosa e em sintonia com o tempo. Talvez por eu ser uma dessas criaturas diversas aí de cima.

Tudo começa quando entra uma moça bonita, porém não consciente ou não orgulhosa disso. Calça jeans abaixo da cintura, mostrando a barriga linda e lisa. Tatuagens pelo corpo que não se “oferecem” à visão. Estão apenas ali, cuidadosamente escolhidas pra mostrar o que de dentro ela não consegue ou não quer tirar. Cabelo desgrenhado, cara de “não preciso me maquiar” ou, de novo, “não quero”… Até aí, tirando as tatuagens (que ainda não fiz), me identifiquei com ela que, ao entrar, me sorriu cúmplice dos mesmos ideais não ditos. Um sorriso como o meu (naquela idade), tímido e carregado de significado. Anexo a tudo isso (ou protagonista de tudo) um sutiã preto, daqueles tipo corpete, sem a parte de baixo. Isto é, uma blusinha de renda, que não sei o nome. Sem blusa por cima. Mas ninguém olhou horrorizado.

Tudo natural, como cada um dos bizarros normais que ali estavam. Um hippie negro quase idoso, com sua arte nas mãos, um rabinho no cabelo, coçando os dentes de vez em quando. Um rastafári também hippie, também negro, porém jovem, conversando com um passageiro. Uma moça de terninho, alisando a orelha do namorado e checando a textura lisa de sua barba bem feita, enquanto conversa animadamente com ele e outro rapaz. Outra moça tapando a cara com o cabelo, pra disfarçar que cutucava o próprio nariz, à procura de sabe-se-lá-o-quê…

Entre narizes, orelhas e dentes, meus olhos passeavam curiosos. A moça do sutiã sentou. Os hippies permaneciam de pé. Hippie eu também me considero… a expressão é apenas para descrever aqueles que ganham a vida fazendo o que amam, mesmo que não ganhem o suficiente e, por isso, acabam se parecendo uns com os outros. Ou na aparência ou na linguagem…

As caras, já maquiadas e já “desmaquiadas” pelo relógio, agora são falantes, alegres (de terem cumprido ou descumprido o comprido dia)… Uma moça com ancas largas ocupa, além da sua cadeira (muito estreita por sinal), metade de cada uma das outras duas ao seu lado. Entra uma senhora magra e se encaixa, com cuidado, no espaço deixado por ela e faz uma cara de “será que ela não vai arredar?”. Depois de alguns segundos, a moça se mexe na cadeira, olhando pro celular, e acaba ficando na mesma posição. E olha pra mulher, tipo “não tem jeito”.

Um telefone toca alto como o da minha dentista, que nunca atende e, mesmo assim, o deixa no volume máximo até a secretária eletrônica pedir pra pessoa mandar um e-mail, que não dá pra entender quais são as letras. Outro dia falei pra ela explicar… “p” de pato, “s” de sapo, etc… ela respondeu: “Tem gente que vai digitar tudo: pdepatosdesapo@gmail.com”.

O do metrô foi atendido, sem mensagens irracionais, pelo dono. No meio disso tudo, uma loira, entre tantas loiras de matizes diferentes, chamava discretamente a atenção. Discretamente porque, assim como tudo isso se desenrolava naturalmente, ela também se mantinha “natural” e os olhares para ela também. Parecia que estávamos em São Paulo, onde ninguém liga pra como o outro está. Cada um na sua, seja essa “sua” diferente, maluca, tudo isso junto ou não.

Essa mesma loira chegou, no dia seguinte, numa cidadezinha pacata do interior e, desta vez, ela parecia descer de uma nave. Uma nave de ETs mesmo ou aquela da Xuxa… Aliás, foi assim que o cabeleireiro a chamou quando terminou o serviço: “Brilha, Xuxa!”… Essa loira-hippie-pós-moderna-tímida-e-careta só sossegou quando colocou no papel a crônica viva que assistiu no metrô.

 

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: www.vozesdeminas.com.br/guiomarcastro

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