Atenção plena.

Hoje eu decidi fazer uma coisa de cada vez. Dedicar plena atenção a cada movimento meu. Focar cada um de meus passos. Dedilhar o teclado com zelo e selecionar meus pensamentos um a um. Respirar fundo e permitir que a minha mente esteja no aqui, agora. Se alguma raiva ou decepção me atingir, não reagirei, mas vou acalmar-me e auto observar-me. No final da jornada, quero ter consciência de que para este dia bastaram os seus cuidados. Decido não deixar que os acontecimentos passados influenciem de forma negativa o dia de hoje. Por mais decepcionante que tenha sido, o ontem já passou e por maiores que sejam os desafios do futuro, ele ainda não chegou (Não sei se viverei até lá). O que realmente conta é o aqui, agora—eu me coloco, suavemente, no presente. Este presente é real. É também fugaz. É preciso agarrá-lo com doçura e leveza. Não deixar que se escoe sem ser querido, apreciado, degustado—é o único que tenho—é o presente que Deus preparou para mim e para você também. Este é o dia que o Senhor fez para nós—o de hoje! Alegremo-nos e exultemos!    

Atenção plena (mindfulness) é decidir—é ter a firme intenção—de estar atento ao momento presente. É um esforço sim, mas deve ser realizado com suavidade, sem julgamento. Dessa maneira conseguimos perceber pensamentos, sensações e sentimentos enquanto estão acontecendo—sem reagirmos automaticamente a eles. Mesmo enfrentando desafios, podemos assim, fazer escolhas mais conscientes, mais funcionais. Enfim, podemos influenciar de forma mais positiva nossas atitudes e comportamentos frente aos embates do dia-a-dia.

A International Stress Management Association (ISMA-BR) (Associação Internacional da Administração do Estresse) pesquisou a presença de estresse entre profissionais das áreas de finanças, indústria e saúde em São Paulo e Porto Alegre: 69% dos entrevistados disseram que o trabalho era a maior fonte estressora. Consideravam que isso tinha efeitos na qualidade de vida e na saúde. 89% responderam que sofriam de sintomas físicos de dores musculares, incluindo dor de cabeça. 72% mencionavam o cansaço e 39%, problemas com o sono. Os sintomas iam além do físico. Afetavam também a saúde emocional: 86% sentiam ansiedade, 81%, angústia e 68% apresentavam irritação. Há também sintomas comportamentais: 59% dos pesquisados disseram que usavam álcool ou algum tipo de droga (remédios prescritos, ou indicados por amigos, ou drogas como cocaína e maconha).

 

Tiago Tatton, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recomenda a utilização da atenção plena como antídoto para esses problemas. Segundo ele, o método consiste em tornar-se um observador de si mesmo. Quando a raiva ou o sofrimento vierem, observar seus efeitos sem reagir. Aquietar-se! Quando somos tomados pela raiva ou outros sentimentos negativos, a tendência usual é partirmos para a ação—sendo que esse é o pior momento para a tomada de decisões. As fortes emoções embotam a área do cérebro responsável pela tomada de decisões. Sob o efeito das emoções agimos precipitadamente e nos arrependemos depois. Portanto, quando formos assaltados por fortes sentimentos, é importante respirar fundo e observá-los sem reagir. É um exercício no qual a mente e o corpo se auto observam.

 

Jon Kabat-Zinn, diretor da Stress Reduction Clinic (Clínica da Redução do Estresse), no Centro Médico da Universidade do Massachusetts, realiza pesquisas com relação aos efeitos da atenção plena. Ele afirma que os maiores atrativos da atenção plena são a sua simplicidade e os seus resultados positivos. Considera esse exercício um método que qualquer um pode utilizar para a redução do estresse—não importa qual seja a cultura, a religião ou o sistema de crenças da pessoa.


O estresse tem aumentado de forma progressiva entre nós. Somos informados dos desastres ocorrendo mundo afora. E, quando não são os noticiários, temos de lidar com os problemas pessoais (No trabalho e em casa—às vezes relacionados com doenças ou com notícias do falecimento de algum ente querido). Há duas formas de lidar com esses impulsos negativos—lutar contra eles ou convidá-los a serem nossos companheiros de viagem. Ao resistir a essas emoções, aumentamos a tensão. Mas, se as observarmos e permitirmos que o nosso cérebro se acalme, elas podem, atuar a nosso favor. Isso exige exercício constante dessa capacidade de auto observação. Quanto mais nos exercitarmos, mais aptos estaremos para lidar com o estresse de forma eficaz. 

 

Tiago Tatton sugere o seguinte exercício de atenção plena: Três vezes ao dia, interrompa o que estiver fazendo, e reserve meio minuto para cada um das seguintes atividades:

 

Foque a atenção em sua respiração e nas sensações em torno do seu estômago. Observe como ele infla quando você inspira e como volta, ao expirar.

Sinta as sensações em seu corpo: tensões musculares, dores, qualquer sensação, sem tentar modificá-las. Apenas observe.

Anote mentalmente as sensações que experimenta: “Estou preocupado”, “Estou com raiva”, ou “Estou agitado”, etc. Não tente alterá-las, apenas aceite-as.

Foque a sua atenção em seu corpo—nas sensações e como você as está vivenciando. Tenha consciência delas, sem julgar nem comentar. Apenas respire com elas. Não importa o que esteja querendo lhe importunar neste momento. Aquiete-se! Relaxe!

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