Desapego

Ômar Souki

Desapego

Ômar Souki

Vejo os pássaros saltitando de galho em galho e as árvores os acolhendo com leveza. Sem vento, elas parecem estar meditando. Pura quietude. No céu, as nuvens adormecem nesta manhã tranquila de inverno. A natureza acalma o nosso ser e nos convida ao desapego. Desapego das preocupações e das ansiedades do dia-a-dia. Mas, muitas vezes, nos apegamos a coisas, a pessoas e a experiências. Tentamos preencher nossos vazios internos e nos esquecemos de que somos completos do jeito que Deus nos criou—nos esquecemos do quanto o próprio Criador nos ama. Essa consciência do amor divino aumenta a nossa autoestima e, quanto maior a nossa autoestima, maior o desapego. Autoestima é o amor por nós mesmos. Ao cultivarmos essa apreciação pela nossa essência, fica mais fácil nos desapegarmos. Se perdermos alguma coisa, alguém, ou uma experiência, não estaremos perdendo parte de nós. Mesmo que a perda doa, é importante saber que nossa essência permanece intacta. O amor que temos por nós mesmos deve transbordar e derramar-se sobre todos à nossa volta.

Sem esse amor, podemos passar pela vida querendo que cada pessoa ou situação seja como esperamos. Isso nos causa um desajuste emocional, porque não temos controle sobre os outros. A compreensão e a aceitação de que a vida e as pessoas nem sempre correspondem aos nossos desejos é um sinal de maturidade emocional. O nosso ego, às vezes, grita: “as coisas têm de ser do jeito que eu quero e quando eu quero!”. Mas, não é preciso que seja assim para que nos sintamos de bem com os outros e com a vida. Podemos aquietar o nosso interior e perceber ali uma Presença maior que todo o resto. Podemos respirar fundo e encontrar a profunda verdade que nos diz que o Reino de Deus está dentro de nós. Ao buscarmos essa essência, todas as demais coisas virão por acréscimo.

Por isso, é tão importante voltarmos o nosso olhar—que tantas vezes se distrai com coisas, pessoas ou experiências—para a fonte única de Plenitude, que é a nossa eterna ligação com o Criador. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso quer dizer que, através de nossas escolhas cotidianas criamos nossas experiências. Ninguém pode respirar por nós, se alegrar ou se entristecer por nós. Somos responsáveis por nós mesmos e pela nossa felicidade. Portanto, não devemos depender da opinião dos outros para nos sentirmos de bem com a vida. Nem sempre as outras pessoas irão aprovar as nossas escolhas. Nosso bem-estar não deve depender delas.  Nem mesmo do nosso passado. Não importa qual seja a natureza de nossas experiências passadas, é importante perdoar aos outros e—principalmente—a nós mesmos. As situações que vivemos no presente são o resultado de escolhas passadas, portanto, para mudar o nosso futuro, podemos agir de forma responsável no presente—no aqui, agora!

Se focarmos nossa atenção nos erros do passado, estaremos pedindo que se repitam no futuro. Daí a importância fundamental de aceitarmos nosso passado, de nos perdoarmos, e de vivermos o presente—evitando os erros passados—criando novas possibilidades para o futuro. O desapego nos diz que nem sempre com lutas, tentativas e persistência conseguimos os melhores resultados, mas sim, com uma mudança de atitude. Com confiança, alegria, bom humor e com a satisfação de viver cada dia como se fosse o único, podemos criar um novo futuro. Assim como somos livres para criar o nosso futuro, devemos também dar liberdade às pessoas com as quais convivemos que realizem seus próprios sonhos. Vemos os nossos filhos crescerem e partirem. Isso faz parte do fluxo da vida. Mudamos de endereço, perdemos amigos, conquistamos novas amizades.  Ao nos desapegarmos criamos em nós a aceitação de que tudo muda, menos o amor. Aprendemos que o amor permanece e que—além do amor incondicional ao Criador—a primeira pessoa que temos de amar neste mundo é a nós mesmos.

 

 

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