Meditação e nutrição

Raramente associamos meditação — prática ligada ao espírito — à nutrição, algo relacionado com o corpo. Meditação é a busca de Deus no silêncio e nutrição é a busca da reposição das energias gastas pelo corpo.   Uma coisa é o relacionamento com Deus, a outra são os cuidados com o nosso físico. Não tinha pensando muito a respeito dessa ligação entre quietude interior e alimentação, até ler um artigo no jornal O Tempo (“Meditação é aliada da ciência para tratar compulsão alimentar”, 11.Set.2014, p. 25). O texto cita pesquisadores da área da saúde que recomendam a prática da meditação para controlar a compulsão alimentar, doença que atinge 30% da população mundial. Considerando-se que 51% dos brasileiros estão acima do peso, esse é um assunto de interesse para muitos.  

Como pode a meditação auxiliar no tratamento da compulsão alimentar? Diminuindo os principais sintomas da doença que são o estresse e a ansiedade. À primeira vista parece algo óbvio, pois quando entramos em estado meditativo acalmamos a mente, diminuímos a agitação, e, consequentemente, sentimos menos necessidade de estar abrindo a geladeira a toda hora. O desafio, porém, não é entender esse laço entre mente e corpo, mas, sim, inserir a meditação no estilo de vida de uma pessoa que come desregradamente. Se não tem controle com a alimentação, como irá então desacelerar o corpo e serenar a mente? A resposta está na vontade de sarar. A dor causada pela doença deve exceder ao incômodo de ter de parar, respirar fundo e esvaziar a cabeça. Não é fácil separar 20 minutos pela manhã e à noite para se entregar à prática da meditação, mas é possível. Podemos começar com sessões de 10 minutos e depois ir aumentando gradativamente.

Quando falamos de meditação pensamos em coisa do oriente. Imaginamos algo ligado a gurus e ao yoga. Mas, a tradição meditativa também faz parte da nossa cultura cristã. Desde os seus primórdios — a começar com Santo Antão, no ano 300 — várias pessoas procuraram no silêncio se encontrar com o Criador. Afastaram-se da agitação das cidades para encontrar-se com Deus no deserto. Essa tradição foi divulgada no ocidente por São Bento, fundador da ordem dos beneditinos e ficou, por muitos séculos, confinada aos mosteiros. Mas, a partir de 1970, popularizou-se entre os leigos com o nome de Oração Centrante, que é um método de meditação cristã. Essa prática foi divulgada por Thomas Keating, um monge beneditino, primeiramente nos Estados Unidos e depois por outros países. Seus seguidores fundaram uma organização chamada Contemplative Outreach (Extensão Contemplativa), que tem o objetivo de tornar a meditação acessível a todos, não importa qual seja a crença religiosa.

Em 2003 fiz um retiro com Thomas Keating e aprendi o método. Embora seja simples, não é fácil. Não é fácil encontrar tempo para praticar. Pela manhã já saímos de casa com mil coisas para resolver e, à noite, estamos cansados. O que fazer então? Colocar a meditação como uma das prioridades de nosso dia. Principalmente para as pessoas que sofrem de compulsão alimentar é de suma importância arranjar tempo para parar.

Em Mateus 6, 6, Jesus aconselha: “Quando você for orar, entre no seu quarto interior. Feche a porta e ore ao seu Pai em segredo. E o seu Pai que está em segredo, vai recompensar você!”. Meditação é isso! Entrar no quarto é entrar em nós mesmos, no mais íntimo do nosso ser. Fechar a porta é abstrair-se de ruídos externos e internos. Ruídos internos são aqueles provocados pelas conversas que desenvolvemos com nós mesmos. Em vez de nos engajarmos nesse diálogo, devemos deixar que os pensamentos passem sem desenvolvê-los. Orar ao Pai em segredo quer dizer: orar sem falar nada. Sem pedir. Sem agradecer. Simplesmente escutar ao Pai. E, Ele, que está no silêncio vai nos recompensar. Como? Com o presente. Sim, o presente. O maior de todos os presentes que é a vida no agora. Não é o passado nem o futuro. Vivendo no agora o estresse desaparece e a ansiedade se esvai. O aqui, agora, é tudo que nos interessa. Por que remoer o passado ou nos preocuparmos tanto com o futuro? Qual é o controle que temos sobre essas coisas?

As primeiras tentativas podem ser frustrantes. Você já tentou ficar sem pensar? Conseguiu? Não precisa ficar sem pensar. É respirar fundo, depois soltar o ar, e com o ar, deixar que os pensamentos passem. Muitas vezes, assim que paramos e nos assentamos em quietude, os pensamentos nos atacam. Mas, não brigue com eles. Deixe que passem. Escolha uma palavra pequena como “paz”, “amor”, “aqui”, “agora”, etc., e repita assim que os pensamentos aparecerem. Permaneça com a palavra escolhida para as sessões seguintes.

Se ainda não fez esse exercício, está na hora de começar. Com ou sem compulsão alimentar, depois que sentir os benefícios da meditação, não vai querer parar.

 

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