O inimigo invisível.

“Darei a você todo o poder e toda a glória do mundo, desde que você me adore”, disse Satanás a Jesus. A resposta foi inequívoca: “Adorarei ao Senhor, meu Deus, e só a Ele servirei”. Esse diálogo sumariza a experiência humana e identifica o inimigo.  Se viver é transitar entre a terra e o céu, porque tão poucos conhecem o paraíso?  Quem é esse inimigo invisível, que nos puxa, que nos tenta, nos absorve e, por vezes, nos cega?  

Do apego extremado ao reconhecimento e ao engrandecimento material, surge o ego. Aparece da necessidade de auto-afirmação, de reconhecimento, de aceitação, enfim, de estar sob holofotes, de sentir a carícia de aplausos e bajulações. É para essa parte da pessoa que o inimigo invisível apela quando diz: “Se você é realmente o Filho de Deus, transforme essas pedras em pão”.  Não é isso que todos queremos? Poder saciar nossa fome, sem trabalhar, sem pagar o preço? Somos tentados a buscar fora, o que já é nosso, por direito Divino: a indescritível alegria de ser, de estar no presente, imersos no fluxo do fazer. A essa tentação de buscar reconhecimento, o Mestre responde: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus”.

Ao referir-se à palavra de Deus, Jesus desvia nossa atenção do pão, pão, pedra, pedra, para algo que transcende o mundo e revela o Ser Divino em nós. O paraíso se conquista pela aceitação, pela alegria, pelo entusiasmo, pela doação e pela gratidão do ser pelo ser. Somos muito mais do que tudo aquilo que possamos possuir. O inimigo, porém, nos tenta e nos diz que é preciso ter cada vez mais—só assim conseguiremos ser reconhecidos. A lógica do Mestre é diferente: antes de ter é preciso ser.   Eckharte Tolle, na obra A new earth—Awakening to your life´s purpose (Plume Book—lançado no Brasil pela Sextante: Uma nova Terra) sugere três formas de derrotar o ego: a aceitação, a alegria e o entusiasmo. 

Aceitação não é inércia ou falta de esperança, mas fazer o que precisa ser feito sem reclamar. Suponhamos que você deseja comer uma salada de frutas. Mas não gosta de ir ao supermercado nem de mexer na cozinha. Tem preguiça, sente desânimo só de pensar. Mas sabe que a salada que você mesmo faz tem mais ingredientes, é mais fresquinha e saudável do que a da lanchonete da esquina.  O que fazer? Vencer o ego, respirar fundo, aquietar o coração, ir calma e serenamente até o supermercado, escolher as melhores frutas, voltar para casa, descascar-las, misturar em uma vasilha, adicionar creme de chantili e mel e saborear com plenitude.  Ao aceitar uma situação, você permite que a paz, e não a contrariedade, entre no seu íntimo. Paz é uma energia gostosa que vem do ser, de um estado elevado de consciência, de presença no agora. Aparece ao assumirmos responsabilidade pelo nosso estado de consciência. 

Alegria é o que sentimos ao fazer algo que realmente gostamos de fazer. Na perspectiva do ego, para ter essa satisfação, é preciso que algo diferente aconteça. Porém, mesmo nas ações mais corriqueiras, como arrumar a casa, ou lavar a louça, podemos encontrar alegria.  O prazer não está na ação em si, mas na nossa entrega ao Presente.  Assim libertamos nossa criatividade, pois, o fazer com alegria deixa que a Inteligência Infinita flua. Permitimos, dessa forma, que a força criativa do céu se manifeste na terra. De fato, o que nos alegra não é o que estamos realizando, mas o fluxo do Espírito em nós. Quando nos desvencilhamos do ego permitimos a expansão dessa força. É isso que os compositores, escritores, escultores, artistas em geral, vendedores e administradores de sucesso conseguem fazer.  Gostam tanto do que fazem que, mais cedo ou mais tarde, livres da obsessão que o ego tem de aparecer, conseguem ser reconhecidos.

Entusiasmo é alegria potencializada por uma meta. Nosso objetivo não deve ser o ter, mas o ser. O inimigo invisível, o ego, quer ter mais e mais e jamais ficará saciado. O Ser Divino em nós já possui tudo e pode, com o tempo, tudo manifestar, desde que não seja para o engrandecimento do ego, mas o benefício de todos à sua volta. Portanto, nossa missão não deve estar ligada a coisas, mas à nossa contribuição para uma família mais feliz, uma comunidade mais harmônica e uma sociedade mais próspera. Em vez de buscar ter mais e mais, podemos ter como meta ser uma inspiração para o crescimento de nossos familiares, amigos e clientes.

A pessoa entusiasta, portanto, é aquela que venceu o inimigo e deixou-se possuir pela Divina Presença. Ao entregar-se apaixonadamente a uma meta sublime, consegue realizar o impossível.  Não mais permite que o ego atrapalhe seu vôo rumo ao infinito. Como Jesus, pode, então, declarar: “Não sou eu quem faz todas essas coisas, mas o meu Pai que está no céu”. 

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