O que é atenção plena?

É o oposto de déficit de atenção. Em um extremo temos a atenção plena e no outro o déficit de atenção. Navegamos entre esses dois polos, um significando presença—corpo e espírito imersos em uma determinada situação—e o outro: ausência! No déficit de atenção a pessoa pode até estar presente de corpo, mas seu espírito, seu coração e sua mente estão saltitando feito um beija flor.  Dependendo da situação, acredito que todos nós já escorregamos no déficit de atenção. Talvez você se lembre das aulas de um professor cujo tom de voz lhe desagradava. Era só ele começar a falar e vinha a canseira, o sono. Os pensamentos voavam para longe, talvez para uma praia distante ou uma fazenda da vizinhança. Mas, havia também aquele mestre que era só ele abrir a boca e você se acendia, viajava em suas narrativas. Eu tive os dois tipos de professores, mas me lembro mais daquela professora no Colégio São Geraldo, em Divinópolis, MG, que arrebatava minha atenção. Quando Dona Isaura começava a falar de história antiga eu viajava para a Mesopotâmia, e ficava encantado com a epopeia revelada através da escrita cuneiforme. O mesmo ocorria com o Egito, suas pirâmides e as memoráveis revelações dos hieróglifos.

Na época eu não tinha noção do benefício que eu estava recebendo através da dedicação daquela mestra. Não estava só aprendendo sobre os caldeus e egípcios, mas estava treinando a minha mente a escutar com atenção plena. Além disso, desde cedo, adquiri o hábito de anotar as coisas que me interessavam. Eu não queria perder nada. Envolvia meus olhos, meus ouvidos e minhas mãos no ato da escuta. Escutava com o corpo e com a alma. Se fechar os olhos agora, dentro de mim passa com nitidez o filme daquelas viagens realizadas há mais de meio século! Por quê? Porque eu escutava com atenção plena.

Mas, a maioria das pessoas não possui o talento de Dona Isaura. Nem nos procuram para contar histórias memoráveis. Quando falam conosco contam casos do dia-a-dia. Arroz com feijão. Como ter atenção plena nesses casos? São justamente as pessoas mais necessitadas de atenção que menos despertam nosso interesse. Nem por isso, porém, são menos dignas de escuta atenciosa. É um ato de caridade escutar um parente ou um amigo necessitado de apoio emocional. O mundo está povoado de pessoas carentes que precisam de um ombro amigo para chorar suas mágoas. Precisamos ter paciência e escutá-las. Não só escutá-las, mas dar-lhes a atenção que merecem. Um dia, seremos nós mesmos os que vamos necessitar de um ombro amigo.

Quando escutamos os outros com atenção plena, as pessoas se sentem valorizadas e animadas a recomeçar. Enfim, encontraram o amigo que estavam procurando. Elas não queriam saber da nossa opinião, nem mesmo da nossa história. Elas estavam em busca de alguém que se interessasse pela história delas, por mais corriqueira que fosse. Essas pessoas estão à nossa volta. É o nosso cônjuge, são os nossos filhos, os nossos irmãos e irmãs. Saber escutá-los é fundamental para melhorar nosso convívio familiar.

Atenção plena não se refere apenas à escuta, mas a todas as nossas outras tarefas. Tudo fica melhor quando feito com atenção. Assim como a atenção plena edifica relacionamentos, também pode ter um impacto altamente positivo na organização do lar, no preparo dos alimentos e no nosso trabalho. O sabor da vida está na atenção que dedicamos a cada segundo de nossa existência. Respire fundo e aprenda a desfrutar até mesmo de sua própria respiração. Cada momento de nossa existência, por mais corriqueiro que seja, nos oferece a oportunidade de viver em plenitude.

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