O sopro divino .

O sopro divino

Ômar Souki

Tudo começou com um sopro: “Então, Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gênesis 2, 7). Em hebraico, a idéia de shabbat gira em torno da noção do sopro. O dia de sábado é o dia em que o ser vivente, sentado diante de Deus, cessa suas atividades para respirar e se alimentar do sopro de Deus. Isso mostra a importância que devemos dar a esse alimento divino: a respiração! Mas, os avanços tecnológicos e as demandas diárias estão nos distanciando cada dia mais desse ideal de respiração profunda e de introspecção. Estamos respirando de forma rápida e superficial. Mestres da meditação do passado e do presente nos aconselham: “É preciso lembrar-se de Deus ao respirar. Pense em Deus mais freqüentemente do que você respira”. Seria possível fazer isso hoje?

Talvez no meio da natureza sim, mas nos grandes centros temos até receio de respirar em profundidade, pois a poluição já atingiu níveis insustentáveis. À medida que se acelera a contaminação, diminui a nossa consciência da Presença do Criador. Coisas que os antigos recorriam a Deus para resolver, os seres contemporâneos recorrem à tecnologia. Antigamente se orava a Deus pelos possuídos por demônios (pessoas deprimidas ou excessivamente agressivas), hoje consultamos psiquiatras que recorrem aos remédios reguladores de humor. Os resultados alcançados pelos remédios podem, então, motivar ainda mais o distanciamento de práticas espirituais. Mas, a busca do equilíbrio nas atitudes e comportamentos não deve se limitar à ingestão de remédios. Pode e deve ser complementada por uma dose diária de introspecção. Como fazer isso em meio a tanto barulho, a tanta correria? Manter um foco constante no presente. Mais do que o ruído e a agitação externa, duas coisas são responsáveis pela nossa irritação cotidiana: o sentimento de culpa (pelo que fizemos ou pelo que deixamos de fazer no passado) e a preocupação (pelo que ainda temos de fazer no futuro).

Culpas e preocupações tomam conta de nosso espaço mental e emocional que poderia estar sendo dedicado à tarefa que se encontra agora à nossa frente. Daí a importância da nossa presença no Presente. O Presente é a graça da vida, Deus em nós. O sopro que nos criou no início, continua disponível a cada momento, a cada respiração. Mas esse sopro só acontece no Presente. O Presente é Deus! Sem Ele não poderíamos nos mover nem realizar as proezas tecnológicas que às vezes ocupam (em nossa mente) o Seu lugar. Portanto, é pura ilusão querer resolver nossos desafios diários sem essa Presença Divina, que se encontra em cada respiração. Ao passo que nos conscientizamos mais e mais do Sopro em nós, rejuvenescemos. Somos recriados pela respiração profunda e consciente.

Esteja onde estiver, pare agora. Respire fundo e agradeça pela Presença em você. Sopre o ar até não poder mais. Ao esvaziar os pulmões, permitimos que mais ar nos preencha. A linfa que envolve as células se movimenta e elas podem liberar as toxinas do organismo, melhorando nossa saúde. Foco total no Presente, concentração na tarefa em questão, é uma atitude que pode ter efeitos milagrosos em nossa qualidade de vida, não importa o nível de desafios  que temos de enfrentar.  Paulo de Tarso aconselhava aos hebreus: “Animem-se uns aos outros a cada dia, enquanto durar o dia de hoje” (Carta aos hebreus 3, 13). E Jesus de Nazaré dizia às multidões: “A cada dia basta o seu cuidado” (Mateus 6, 34). Busque viver no agora. A melhor lembrança de que a única coisa que conta, de fato, é o Presente, está na respiração. Não podemos respirar nem ontem nem amanhã, somente agora. A vida está no Presente!

  

 

 

 

 

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