O verdadeiro eu

Ômar Souki 

Quando fazemos o silêncio interior entramos em comunhão com Deus. Persistindo com a prática diária da meditação, conseguimos gradualmente recobrar as sensações de afeto, ou seja, de aceitação e amor; de poder, isto é, liberdade de controlar a vida e de viver como desejamos; e de segurança, que significa certeza de que iremos sobreviver a tudo — de que tudo, no fim, vai dar certo. Isso é possível, com uma condição: que haja persistência na prática do silêncio. É preciso que façamos duas sessões de silêncio, uma pela manhã e outra à noite, antes de deitar. Cada uma pode variar de 20 a 30 minutos. A recompensa, exige comprometimento. O silêncio da manhã nos prepara para o dia e o da noite, para nos proteger durante o sono. O silêncio da noite protege a nossa mente de ser programada de forma negativa enquanto dormimos. Ele nos protege de realimentarmos aquelas três programações básicas de afeto, poder e segurança.  

Quando entramos no quarto interior, não levamos conosco as programações de infância.  Nessa condição, o processo de cura se torna mais fácil. O processo de cura é imensamente facilitado pelo silêncio, principalmente porque esse estado nos permite descobrir que, realmente, estamos doentes, precisando de ajuda. De uma forma ou de outra, todos nós acabamos por ter uma ou mais dessas necessidades (afeto, poder e segurança) frustradas, portanto criamos o falso eu. Mas a maioria das pessoas não admite que precisa ser curada. Portanto, só o fato de aceitarmos que precisamos de ajuda já é um grande progresso. Depois que nos acostumamos à prática do silêncio e permitimos a ação do Terapeuta Divino, passamos até a achar graça de nossa glutonice, de nossas fantasias sexuais e até mesmo de nossos ódios. Quando isso acontece, já estamos no caminho da transformação rumo ao infinito. Essa viagem é em direção a descoberta de quem realmente somos. Coisas que antes nos causavam um enorme incômodo e irritação, já não mais nos aborrecem, ou apenas causam pequeno desconforto. Isso porque nos tornamos quem sempre fomos, mas não sabíamos que éramos.  Sempre fomos o eu verdadeiro — que não tem um ponto fixo de referência e cuja vontade se movimenta de acordo com a Vontade de nosso Eterno Amor (Deus). Ao retornarmos a esse ponto, uma infinita sensação de liberdade toma conta de nosso ser, e nos tornamos um com o Todo. 

Para diminuir a influência do falso eu em nossa vida podemos dar três passos decisivos:

Ouvir ou ler os ensinamentos vindos do Céu,

Devemos contemplar, refletir, sobre o que lemos ou escutamos,

E, por fim, praticar assiduamente a oração do silêncio, a meditação.

Vivemos anestesiados. Passamos pela vida encantados com as ilusões do mundo e facilmente nos esquecemos de quem realmente somos. É preciso que nos recordemos de nossa verdadeira natureza. Ao escutar com atenção os ensinamentos de Maria Santíssima, ou lermos os Evangelhos, estamos abrindo mão de nós mesmos, de todas as informações, conceitos, ideias e preconceitos que povoam nossa cabeça. Lenta e firmemente a resistência do ego vai sendo minada. À medida que inundamos nossa mente e o nosso coração com os conceitos espirituais e a existência de uma realidade  mais consistente do que esta em que estamos vivendo, diminuímos a  vontade de nos apegarmos a coisas, pessoas e relacionamentos. 

Tudo na Terra é transitório. Passa num piscar de olhos. Aprofundamos nossa compreensão ao contemplarmos e refletirmos sobre a impermanência e ao permitirmos que os ensinamentos espirituais façam parte de nosso cotidiano. A contemplação leva o conhecimento da cabeça para o coração. Sentimos no cotidiano a verdade, a força, o poder dos ensinamentos. Depois de ouvir e refletir sobre eles, devemos praticar a meditação. É importante abrir espaço para o silêncio. A meditação é a busca do silêncio interior no meio de uma existência agitada. É preciso querer muito. Precisamos até certo ponto ser obstinados para praticar a meditação pelo menos duas vezes ao dia, meia hora pela manhã e meia hora no final da tarde ou à noite. Essa disciplina, em última análise, nos conduzirá ao nosso verdadeiro eu.

 

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