Ômar Souki

Trabalhar faz bem para o cérebro

Ômar Souki

Assisti a uma apresentação de slides baseada em uma entrevista com a dra. Rita Levi-Montalcini, que viveu 103 anos. A entrevista foi realizada quatro anos antes de ela fazer 100 anos em 2009. Nasceu em Turim, Itália, em 1909 e obteve o título de medicina na especialidade neurocirurgia. Recebeu o prêmio Nobel de Medicina em 1986. Devido à sua ascendência judaica, emigrou para os Estados Unidos antes da II Guerra Mundial e começou a trabalhar como pesquisadora na Universidade de Washington. A dra. Levi-Montalcini nos estimula a continuar produzindo após atingir a idade de aposentadoria, pois o cérebro não envelhece. Quanto mais estimulado, mais saudável. Leia a seguir as suas respostas a algumas perguntas interessantes:

-- O que fará para comemorar os seus 100 anos de idade? -- Ah! Não sei se viverei até lá. Além disso não gosto de celebrações. No que estou interessada e gosto é no que faço a cada dia.

-- E que você faz? --  Trabalho para dar bolsas de estudos para meninas africanas para que estudem e prosperem, elas e seus países. E continuo pensando, pesquisando.

-- Não vai se aposentar? -- Jamais! Aposentar-se é destruir o cérebro! Muita gente se aposenta e se abandona. Isso mata o seu cérebro e a pessoa adoece.

-- E como está o seu cérebro? -- Igual quando tinha 20 anos. Não noto diferença em ilusões nem em capacidades. Amanhã voo para um congresso médico.

-- Mas haverá algum limite genético? -- Não! Meu cérebro terá um século, mas não conhece a senilidade. O corpo se enruga, não posso evitar. Mas não o cérebro.

-- Como você faz isso? -- Possuimos grande plasticidade neural. Quando neurônios morrem, outros se reorganizam para manterem as mesmas funções. Mas para isso é conveniente estimulá-los.

-- Ajude-me a fazê-lo. -- Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faça com que ele trabalhe e ele nunca se degenará.

-- E viverei mais anos? -- Viverá melhor os anos que viver. O interesse é isso. A chave é esta: manter curiosidades, estar empenhado, ter paixões. Não me refiro especificamente a paixões físicas, mas simplesmente a ter paixões.

-- A sua foi a pesquisa científica?  -- Sim, e continua sendo. Descobri como crescem e se renovam as células do sistema nervoso. Foi em 1942. A esse fenômeno dei o nome de “nerve growth factor – ngf” (fator de crescimento neural). Durante quase meio século houve dúvidas. Até que foi reconhecida a sua validade e, em 1986, me deram o prêmio Nobel por isso.

-- Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista? – Desde menina tive o empenho de estudar.  Meu pai queria me casar bem. Queria que eu fosse uma boa esposa, uma boa mãe. Eu não quiz. Fui firme. Confessei que queria estudar.

-- Seu pai ficou magoado? – Sim. Mas eu não tive uma infância feliz. Sentia-me feia, boba e pouca coisa. Meus irmãos mais velhos eram muito brilhantes e eu me sentia inferior.

-- Isso foi um estimulo? – Meu estimulo também foi o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava na África e ajudou no combate à lepra. Eu desejava ajudar aos que sofrem. Isso era o meu grande sonho!

-- Isso você tem feito atravez da sua ciência. – Hoje ajudo as meninas da África para que estudem. Lutamos contra as doenças, contra a opressão das mulheres nos países islâmicos, além de outras coisas.

-- A religião freia o desenvolvimento cognitivo? – A religião muitas vezes marginaliza a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo. Mas algumas religões estão tentando corrigir essa posição.

-- Existem diferenças entre os cérebros do homem e da mulher? – Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto as funções cognitivas não há diferença alguma.

-- Por que ainda existem poucas cientistas? Não é assim. Muitos descobrimentos científicos atribuidos a homens, foram feitos pelas suas irmãs,  esposas e filhas. Hoje, felizmente, há mais mulheres envolvidas com pesquisas científicas do que homens.

-- O que tem sido o melhor em sua vida? Ajudar aos outros.

-- O que você faria hoje se tivesse 20 anos? Mas eu já estou fazendo!

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