Ômar Souki

Papas João Paulo I e II

Ômar Souki

Albino Luciani e Karol Wojtyla—o que unia essas almas? Assisti a um filme sobre a vida de João Paulo I e já havia assistido a outros sobre o tão famoso João Paulo II. Sempre me perguntei porque Wojtyla tinha sido tão “pouco criativo” ao escolher esse longo nome João Paulo II. Chegando após o papado relâmpago de 33 dias de Albino Luciani ele simplesmente mudou o numeral depois do nome escolhido por Luciani. Por incrível que pareça, Luciani, já sabia que não seria dele a tarefa de sair pelo mundo evangelizando. Jamais havia almejado posições de poder na hierarquia eclesiástica—mas tinha sempre sido escolhido devido suas competências administrativas e profunda humildade. Sabia que a sua passagem pela posição mais elevada a que um religioso pode almejar seria rápida. Repetia com frequência a seguinte frase: “É preciso que a semente morra para que a árvore cresça e dê frutos!”.

Durante o conclave para a eleição de João Paulo I, uma das cenas foca a posição onde estava Karol Wojtyla—bem de frente a Albino Luciani—e dá a entender, pelo olhar de Wojtyla, que ele havia votado em Luciani. Assim que foi eleito papa, Albino chamou Karol e lhe entregou um terço que pertencera à mãe de Albino. Pediu ao futuro papa João Paulo II que rezasse por ele naquele terço. Karol achou o presente acompanhado de tal pedido, algo inusitado e disse: “De qualquer forma vou rezar por você, não precisa que me dê de presente o terço que pertenceu à sua mãe”. Mas, Albino insistiu e, finalmente, Karol aceitou.

Quando diziam para João Paulo I que ele viajaria o mundo em jornadas de evangelização, ele afirmava categoricamente que ele não faria isso, mas que o seu sucessor, sim! Originário de uma pequena aldeia, no norte da Itália, Albino não se sentia confortável com a pompa e as exigências que cerceavam seus movimentos no Vaticano. Antes de ser papa, Albino visitou a irmã Lúcia, vidente de Fátima, no Carmelo de Coimbra e ela lhe disse que ele seria papa e acrescentou: “Quanto ao senhor, senhor padre, a coroa de Cristo e os dias de Cristo”. No 25º dia do seu papado, ele—lembrando-se de tal profecia—escreveu em seu diário: “Os dias de Cristo serão meus dias, minhas semanas, meus anos? Não sei”.

Enquanto ainda era cardeal em Veneza, Albino Luciani, precisou de um empréstimo para ajudar os pobres da região. Recorreu ao Banco do Vaticano, cujo o diretor executivo era Paul Marcinkus, e o empréstimo lhe foi recusado. Ironia das ironias, pouco tempo depois, o próprio Albino, como papa, vira chefe de Marcinkus. Tem uma conversa séria com ele e exige explicações sobre as finanças do Vaticano e a sua proximidade com o banco Ambrosiano de Milão. A conversa irritou profundamente a Marcinkus.

O súbito desaparecimento de João Paulo I não é visto por muitos como simples obra do “acaso”. John Cornwell, na aclamada obra, Um ladrão na noite (1989), estuda o assunto a fundo e conclui: “João Paulo I quase com certeza morreu de embolia pulmonar. Necessitava de descanso e medicação. Se estes tivessem sido receitados, ele provavelmente teria sobrevivido. As advertências de uma doença mortal estavam claras, à vista de todos. Pouco ou nada foi feito para socorrê-lo”. Mas, como do maior mal, Deus faz o maior bem, logo providenciou o II, que, literalmente, transformaria o mundo—divulgando com força a devoção à Misericórdia Divina—nossa última taboa de salvação!

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