Ômar Souki

O valor do passado

Ômar Souki

Contemplo algumas caixas colocadas na estante de minha biblioteca. Ali estão vários diários preenchidos com passagens de minha adolescência. Foi quando descobri que amava escrever. Eu me deliciava em conversar com um caderno em branco e preenchê-lo de reflexões sobre a vida e o viver. Os cadernos e agendas foram aumentando à medida que o tempo passava e hoje compõem uma estante inteira de anotações feitas de próprio punho. Escrevo por diversão. Colocar meus pensamentos no papel me dá enorme prazer. Hoje em dia, além das anotações de próprio punho, tenho também a alegria de dedilhar o teclado do computador e observar as ideias aparecendo na tela.

Algo dentro de mim me dizia que o meu passado era importante. Por isso, guardo esses cadernos e agendas como verdadeiros tesouros. São como aqueles baús que algumas pessoas encontram por acaso enterrados no fundo do quintal, abrem, e descobrem que estão cheios de moedas de ouro e de joias preciosas. Portanto, quando olho despreocupado para aquela estante, vejo que a vida está ali palpitante, pronta para ser redescoberta. É a dor sentida pelo rompimento de um namoro ou por um acidente de carro. É a culpa estampada por não ter sido bom o suficiente com meus pais e meus mestres. É o medo de morrer e de não merecer o Céu!

Guardei e guardo as minhas reflexões porque sentia ser bom fazer isso. E, há pouco tempo, tive a confirmação da importância que devemos dar ao nosso próprio passado. Foi lendo o livro Em busca de sentido de Viktor Frankl que me dei conta de que—de fato—estou fazendo a coisa certa. Devo sim, valorizar, e muito, o meu passado. O meu passado é um monumento que está sendo construindo dia a dia. Representa a minha proteção contra o sentimento de que tudo é transitório, de que tudo passa. Sim tudo passa. Mas o meu passado não. Ele é o meu legado para mim mesmo e para quem desejar dele aprender algo.

Viktor Frankl chega a afirmar que os jovens deveriam invejar os mais idosos. Por quê? Porque têm passado. Na verdade, as pessoas mais ricas em anos não estão tão preocupadas com as oportunidades e possibilidades do futuro. Elas possuem mais do que isso. Em vez de ter possibilidades no futuro, elas podem contemplar as realidades do seu passado. Essas experiências são compostas das coisas que foram realizadas, das emoções que sentiram e dos valores que viveram. Nada nem ninguém pode roubar-nos o patrimônio de nosso passado.

Esse pensamento aumentou em mim o valor do meu passado. Como sou rico de passado, agora que me aproximo da sétima década do viver! Minha vida tem sentido e o meu passado é a minha riqueza. Portanto, eu sinto que tenho valor para mim e para os outros. Meu significado e meu valor estão baseados nas experiências que vivenciei. O mesmo acontece com todo ser humano. Porém, poucos chegam a ver o passado como uma riqueza, mas sim como um peso a mais.

Não importa qual tenha sido a natureza de seu passado, ele é a riqueza que não passa. Ele é o seu tesouro. Independentemente de você ter plantado uma árvore ou não, escrito um livro ou não, ou ter tido um filho ou não—o seu passado é o seu patrimônio. Esse monumento foi construído com os tijolos das dores sentidas, das culpas remoídas e dos medos vividos. Enfim, você é quem você é devido ao seu passado.

Por melhor ou pior que tenha sido nosso passado, há sempre a possibilidade de alterá-lo. Para construir um passado melhor, basta vivermos um hoje melhor. Cada um de nós é responsável, e deve escolher o para quê ou para quem estamos dispostos viver. Essa responsabilidade estará sempre em nossas próprias mãos. Como afirma Frankl, “os seres humanos são criaturas responsáveis que precisam manifestar o potencial que a vida se lhes oferece. O valor verdadeiro da vida deve ser encontrado no mundo, e não dentro da pessoa ou do seu psiquismo. É a isso que chamamos de autotranscedência da existência humana”.

 

 

 

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