Onde estão os outros nove?

O poder transformador da gratidão

Dez leprosos passaram por Jesus e gritaram em alta voz: “Mestre, tem piedade de nós!”. Jesus atendeu ao pedido e todos foram curados, mas apenas um voltou; o que era samaritano. Prostrou-se aos seus pés, e lhe agradeceu. Jesus, então, perguntou: “Não foram purificados todos os dez? Onde estão os outros nove?”. Essa cena ilustra a importância da gratidão. A graça recebida pelos dez era inconcebível para a época, pois os leprosos eram afastados do convívio humano. Eram considerados doentes, não só do corpo, mas também do espírito. A lepra era a representação externa da sujeira da alma, segundo as crenças daquele povo. A cura, portanto, abriu para os dez a possibilidade de voltar a viver dignamente, como seres humanos. Foi o equivalente a uma ressurreição. Eles estavam mortos para a sociedade e, depois do encontro com Jesus, passaram a viver novamente. Mas apenas um voltou para agradecer!

Robert Emmons, pesquisador dos efeitos da gratidão realizou um estudo com pessoas que sofriam de doenças sérias. Queria saber se aqueles doentes, que tinham de enfrentar desafios diários devido às dores no corpo, aos exames clínicos, a tratamentos incômodos, e às visitas aos médicos, conseguiam ser gratos por alguma coisa. Ficou surpreso ao constatar que os entrevistados identificaram inúmeras coisas pelas quais conseguiam ser gratos. Não só isso, mas também mostravam sentimentos profundos com relação ao poder transformador que a gratidão tinha na vida deles. 

Esse estudo explica a pergunta de Jesus: “Onde estão os outros nove?”. O Mestre dos mestres não estava preocupado com a sua própria satisfação pessoal de receber agradecimento pelo seu ato misericordioso.  Ele queria, isso sim, que os outros nove mantivessem a saúde, não só física, mas também, espiritual. Ao ver que apenas um voltou para agradecer, Jesus disse: “Não se achou nenhum que voltasse e desse louvor a Deus a não ser este estrangeiro? Levante-se e vá. A sua fé o salvou!”. Dá a entender que apenas o que voltou para agradecer (e que não era israelita) tinha sido plenamente curado. Os outros nove — mesmo tendo recebido a cura do corpo — permaneceram enfermos no espírito. De que doença padecia o espírito deles? De uma enfermidade que talvez seja mais terrível do que as chagas na carne: do orgulho.     

Nos dias em que estava refletindo para escrever este artigo, conheci Aline, uma moça de 26 anos. Andava com o auxílio de uma bengala e tinha uma das pernas atrofiada. Falava com dificuldade e sua voz era apenas um sussurro. Mesmo assim, ela me disse: “Nós devemos estar sempre agradecendo a Deus por tudo que Ele nos dá. A vida deve ser um constante ato de agradecimento. Depois do acidente de moto que tive aos 15 anos, passei dois meses na UTI. Os médicos tiveram que fazer traqueotomia para que eu pudesse respirar. Todos pensavam que eu iria morrer. Deus me fez nascer novamente”.  Aline representa hoje, o leproso agradecido. Ela voltou para agradecer. Apesar de suas limitações físicas, o seu espírito está livre, pronto para voar alto! Ao agradecer, mesmo não conseguindo andar nem falar direito, ela supera a enfermidade e se torna um exemplo de força.

De acordo com os estudos de Emmons, a gratidão reforça a felicidade. Como? A gratidão nos ajuda a re-interpretar eventos desagradáveis, diminuindo o impacto emocional negativo. Quando a pessoa suporta com gratidão as coisas ruins que lhe acontecem, ela busca pelas conseqüências positivas que resultam de eventos negativos.

O que pode ser pior do que um câncer generalizado? Essa foi a condição de minha irmã Cibele por cinco longos anos. Começou com câncer no seio esquerdo. Operou! Logo a seguir veio a metástase e a doença se espalhou pelo corpo atingindo a medula óssea e o cérebro. Nunca a ouvi reclamar. Pelo contrário, agradecia pela oportunidade de poder levar alívio emocional aos outros doentes. Com um sorriso no rosto consolava os  colegas de dor na ante-sala da quimioterapia. Além de palavras de estímulo, também lhes oferecia pequenos presentes (terços, quadros e livretos de oração). Para as crianças levava balas e doces. As horas que passava recostada recebendo na veia enormes doses de substâncias químicas — que ao agredir as células cancerígenas, também detonavam com o seu frágil corpo — não reclamava. Pelo contrário, segurava firme nas contas do Rosário, relembrando a paixão de Cristo. Agradecia a Deus por ser parceira de Jesus no sofrimento. Tudo padecia com alegria sobrenatural. Enfim, era um exemplo de gratidão para todos à sua volta. Ao servir de alívio para os outros, recebeu do Senhor uma enorme graça: não sentia as dores atrozes que normalmente acompanham o câncer nos ossos.  Além das picadas e cortes para colocar o cateter, não sentia outras dores.  Padecia dos incômodos e das inconveniências da doença, mas não do terrível sofrimento provocado por aquele tipo de câncer. Quando lhe perguntavam qual era o medicamento que sedava a sua dor, ela respondia: a Santa Eucaristia. Não passava um dia sequer sem a Comunhão. Morreu aos 48 anos. Olhou para o alto e sorriu. Foi como se o próprio Jesus tivesse vindo para conduzi-la à Casa do Pai.

Acredito que a gratidão transformou a vida daquele leproso que voltou e se atirou aos pés de Jesus. Já os outros, mesmo estando livres da doença,  não escaparam das chagas do orgulho. O texto bíblico nos leva a crer que o leproso agradecido teve dali para frente uma vida melhor do que a dos outros nove que não retornaram para agradecer.  Aquele samaritano foi salvo pela sua fé! A gratidão também ajudou Aline a carregar, com alegria, a imperfeição de seu corpo e fez com que Cibele transformasse seu câncer em uma oportunidade de consolar outros doentes. Aline e Cibele encararam eventos trágicos — acidente de moto e câncer generalizado — como oportunidades. No caso de Aline, o acidente a aproximou mais de Deus, e no de Cibele, o câncer lhe abriu as portas do Céu!

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