As pinturas do Santuário de Santo Antônio

As pinturas do altar do Santuário de Santo Antônio foram tombadas como patrimônio cultural em 1988 devido ao seu alto valor cultural, histórica e artístico. O Portal G37 conheceu os detalhes dessa obra e desvendou seus símbolos.

Amilton Augusto

 

As pinturas-murais do Santuário de Santo Antônio é imagem comum para qualquer divinopolitano católico ou ainda para muitos que não são, mas conhecem a igreja. A obra é do artista holandês Frei Humberto Randag, OFM, que contou com a ajuda da então estudante Geralda de Souza, em 1949, quando a cidade comemorou os 25 anos da presença franciscana e festejava também o fim da construção do Santuário que durou mais de vinte anos.

A pintura interna da igreja foi tombada pela lei municipal número 2459 de 1988. Isso significa que a imagem teve seu valor histórico, artístico e cultural reconhecido oficialmente pelo município e, portanto, deve ser protegido pelo Poder Público para que não seja modificada ou destruída.

O Portal G37 traz detalhes da arte que reiteram a postura e a relação intima dos franciscanos com a população divinopolitana. Conheça quais os símbolos e as representações presentes no afresco e saiba quem foi Frei Humberto Randag.

Valor da obra

A pintura foi concebida dentro de um programa minucioso, facilmente perceptível ao espectador mais atento. Desde a seleção da técnica a ser utilizada, a distribuição, o enquadramento dos grupos iconográficos e a representação simbólica expressam um estudo cuidadoso.

A presença do artista holandês nas pinturas do Santuário de Santo Antônio está ligada à relação dos franciscanos com Divinópolis. Quando o município, recém-inaugurado, ainda se projetava para ser uma grande cidade, chegaram os primeiros franciscanos, mais precisamente em 1924, quando frei Hilário Verhey estabeleceu a Ordem dos Franciscanos Menores (OFM). Desde então, os religiosos contribuíram para o desenvolvimento social, cultural e espiritual, enquanto, muitas das vezes, a maior preocupação era com o desenvolvimento econômico que se dava através da ferrovia e mais tarde na siderurgia.

A pintura representa três expressões que pertenciam ao legado de frei Humberto: a Igreja Triunfante com o Divino Espírito Santo (representada à parte superior); o Antigo Testamento com a presença da crucificação de Jesus Cristo (representada ao centro); e a Igreja Militante mostrando o trabalho dos franciscanos (representada à parte inferior). Para o professor da Escola de Belas Artes da UFMG, Marcos Hill a obra faz parte do trabalho dos franciscanos, que é também de acolher as multidões. “as pinturas reiteram a secular intenção dos franciscanos que, enquanto ordem mendicante, é transformar o interior de suas igrejas em local de acolhimento das grandes multidões. A obra oferece ao espectador uma singular experiência afetiva. Suas dimensões acolhedoras, a vibração atraente das cores e o contexto alegórico envolvem sentidos e sentimentos, propiciando a atitude da contemplação” afirmou.

A produção

A técnica utilizada para a obra de arte, que foi executada em quatro meses, entre agosto e novembro do mesmo ano, foi a têmpera de caseína. Trata-se da mistura do pigmento com um aglutinante, neste caso a caseína, uma proteína do leite que serve como uma espécie de cola. Nessa técnica cores são mais luminosas e os tons escuros são menos profundos. Cerca de 222 m² perfazem a área total das pinturas com temas sacros, que compreende desde os painéis do altar-mor, o arco do cruzeiro, das paredes laterais e do coro.

Ao redor das figuras principais, que é a crucificação de Jesus Cristo, o artista holandês representou diferentes pontos de vista a respeito da organização da igreja católica: a igreja triunfante, representada pelos santos São Pedro e São Paulo, Santo Agostinho, São João Maria Vianney e São Lourenço; as virgens e das viúvas, representadas por Santa Cecília, Santa Inês, Santa Isabel, Santa Catarina, Santa Clara, Santa Bárbara, Santa Úrsula e Santa Maria Madalena; um grupo de confessores e fundadores de ordens religiosas representados por São Luís, São Francisco de Assis, São Columbano, São Domingos e São Gregório Magno.

 

 

Símbolos

 

A pintura é cheia da simbologia cristã. À esquerda, ao lado de Cristo crucificado, está Abraão que oferece seu filho Issac a Deus; Isaias, que anuncia a vinda do Messias e dos seus sofrimentos e triunfos; Judite, com a cabeça de Holofernes, protótipo de Nossa Senhora. Ainda à esquerda, há o Mistério da Encarnação, a cena bíblica que o anjo São Gabriel anuncia a Maria que havia de conceber o Espírito Santo e dar a luz a Jesus.

No meio, a cima do crucificado, há a corte das virgens e viúvas, representadas por Santa Cecília (a virgem e mártir com a harpa), Santa Inês (com o cordeirinho), Santa Isabel da Hungria (com as rosas), Santa Catarina (com a roda), Santa Clara (com a custodia), Santa Bárbara (com a torre), Santa Úrsula (com a seta) e Santa Maria Madalena.

À direita do crucificado há um grupo de confessadores e fundadores das ordens: São Luís, rei da França (com instrumentos da paixão), São Francisco de Assis, São Columbano e São Domingos. Há também o anjo que oferece ao Pai o sangue derramado de Jesus que Ele aceita serena e benignamente, enquanto ao lado direito se vê a órbita das nuvens que aureolam a cena, a figura de São João Batista. Pela felicidade de sua concepção artística destaca-se por estes três desenhos o grande mistério da fé, a Santíssima Trindade na Obra da Redenção. Adão e Eva, na fuga do Paraíso, cujo pecado trouxe a maldição no mundo. Moisés, com as tábuas da lei e serpente de cobre, símbolo do Santo Lenho. Rute, com o feixe de trigo, modelo de amor filial que figura na genealogia de Jesus Cristo. Jeremias, o grande profeta e vidente da sagrada paixão de Jesus Cristo, conhecido por suas lamentações que a Igreja canta no ofício das trevas durante o Tríduo Sacro. O pobre Jó, sentado no monturo, o modelo da paciência e por isso símbolo de Jesus cristo na sua humilhação e sofrimentos.

O Grande painel na parede frontal do Santuário é a peça principal e se destaca. No centro por cima duma natureza montanhosa, cheia de flores, tudo em formas pictóricas dum surrealismo moderado, o Crucificado, que das mãos cravadas, deixa cair, em dois pratos segurados por anjos, em cada lado três imensas gotas de sangue, de um vermelho luminoso. Jesus cristo, formado pelo Espírito Santo, no seio puríssimo da Virgem, se sacrifica para dar ao seu Pai celeste plena satisfação pelos pecados do gênero humano.

 

 

 

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