quinta-feira, 11 de Janeiro de 2018 13:17h

Médico do Samu destrata paciente durante atendimento telefônico

Samu confirmou denúncia e profissional foi notificado

Um pedido de ajuda ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Divinópolis ganhou repercussão nas redes sociais no início da semana. A ligação feita no último domingo (7) por um morador do bairro Campina Verde, solicitando uma ambulância para atender um homem que sofria de dores no peito, foi gravada e, no áudio, é possível perceber quando, de forma impaciente, o médico afirma não ter ambulância disponível. O mesmo médico afirmou, ainda na ligação, não estar interessado na história de uma vizinha que também auxiliava o paciente. A assessoria de comunicação do Samu confirmou a ocorrência.

Na ligação, que durou cerca de seis minutos, o solicitante afirmou que seu vizinho sofre de problemas cardíacos e, no momento, sentia muita dor no peito.  A ligação foi transferida para um médico e o solicitante informou: “Estou com meu vizinho e ele está com muita dor no peito, ele tem até problema de coração e disse que está tendo pontada muito forte no peito, não está conseguindo nem ficar em pé”, disse.

O médico questionou se o paciente faz uso de bebida alcóolica e o solicitante confirmou. O médico orientou que os próprios vizinhos o levassem até uma unidade de saúde, mas o solicitante afirmou estar sem carro, passando o telefone para outra vizinha, que não se identificou.

“Eu sou vizinha dele e ele está com muita dor no peito”, afirma a mulher. O médico questionou mais uma vez se o paciente fez uso de bebida alcóolica e a mulher afirmou que ele havia bebido cerveja. O médico insistiu para que alguém o levasse para o hospital e a mulher desabafa:

“Então vai morrer mais um, porque eu chamei vocês para atenderem meu marido e vocês não vieram. Ele morreu antes de chegar ao hospital. Vocês poderiam fazer uma caridade para nós. O meu marido não bebia”, disse a mulher. O médico disse não ter ambulância disponível e voltou a pedir que o paciente fosse levado para o hospital pelos próprios vizinhos.

“Não tem ambulância disponível. Já expliquei para o senhor aí. Na hora que liberar, a gente manda, mas agora não tem. Se vocês querem ajudar também, é só colocar no carro e levar para fazer um eletro na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA)”, disse.

A mulher questiona: - Para ele morrer no caminho como o meu marido morreu?

O médico afirma: - Olha, se seu marido morreu, não é culpa nossa.

Mulher: Foi culpa de vocês sim.

Médico: - Foi culpa nossa?

Mulher: Foi!

Médico: Ele morreu de que?

Mulher: Morreu de ataque cardíaco.

Médico: Ele fumava?

Mulher: Ele não fumava, ele não bebia...

Médico: Então todos os ataques cardíacos vão ser culpa do Samu?

Mulher: Não. Eu chamei vocês, conversei com vocês, no caminho...

A mulher foi interrompida pelo médico: - Deixa eu te falar, essa linha é uma linha de emergência. Não estou interessado na sua história não, pra te falar a verdade, está bom?

Mulher: - Pois eu estou interessada, porque a conversa está toda gravada aqui. Obrigada então! Muito obrigada.

A mulher agradece mais uma vez e o médico afirma que a ligação realmente está sendo gravada, pedindo para falar com o solicitante.

Médico: - Eu quero conversar com o solicitante, não com a senhora. Passa para a pessoa que ligou a primeira vez, por favor.

Mulher: - Já que vocês não vêm, obrigada.

Médico: - Deixa eu te falar, não quero conversar com a senhora. Quero conversar com ele.

A mulher passa o telefone para o solicitante e o médico informa que irá tentar liberar uma ambulância para o atendimento, afirmando que demoraria cerca de 10 minutos, pois a viatura estava empenhada em outro atendimento.   Ao término da ligação, o médico orienta que o paciente seja medicado até que a ambulância chegasse. O solicitante questionou se a ambulância realmente seria empenhada e o médico afirma que sim.

Médico: - Estou mandando [a ambulância] porque você está pedindo, não porque essa senhora anterior pediu não.

SOLICITANTE

A reportagem conseguiu contato com a dona de casa Eliana Aparecida, a solicitante que conversou com o médico. Segundo Eliana, ela já estava revoltada com o serviço prestado pelo Samu devido à morte do seu marido, ocorrida no dia 18 do mês passado. “Meu marido estava com dores no peito, procurei os médicos e eles pediram para que nós mesmos levássemos o meu marido para a UPA. Disseram que não tinha ambulância. Nós chegamos à UPA de carro, cinco minutos depois, ele morreu”, contou.

Devido à revolta e com medo de o problema se repetir com seu vizinho, a dona de casa resolveu gravar a chamada realizada no domingo (7). “Com o descaso, fiquei ainda mais magoada. Já estava triste com a morte do meu marido e agora vem um profissional da saúde, que podia me ajudar naquela hora, e começou a gritar comigo, dizendo que não sou importante e que só mandariam a ambulância por causa do meu genro, não porque eu solicitei”, emocionada, desabafou a dona de casa.

Apesar da confusão durante a ligação, uma ambulância foi encaminhada para o endereço e o paciente foi socorrido. Eliana contou que, quando a equipe chegou, o paciente estava convulsionando. A dona de casa afirma que o vizinho passa bem.

SAMU

O diretor executivo do Samu, José Marcio Zanardi, reconheceu o erro cometido pelo médico e lamentou o ocorrido. Segundo o diretor, os profissionais do Samu trabalham para atender à população, independente de crenças ou condições sociais. “Médico regulador não é dono das ambulâncias do Samu. Estão aqui para trabalhar e prestar serviço de urgência para qualquer pessoa que necessitar desse serviço” afirmou.

Como o serviço é público, José Marcio explica ser necessário seguir o estatuto do Consórcio e do regimento interno para que as punições sejam aplicadas, porém o diretor garantiu que o profissional já foi advertido verbalmente e será advertido por escrito, constando na ficha funcional do profissional. “Se houvesse um prejuízo maior à vida do paciente, o grau de punição seria outro. Encaminharíamos a denúncia para o conselho de classe dele para tomar as providências”, explicou, afirmando também que outras medidas serão tomadas se o caso voltar a repetir.

O serviço possui um canal de ouvidoria em que a população pode denunciar o mau atendimento por parte de qualquer profissional. José Marcio enfatiza a importância da participação popular em casos como esse, denunciando através do telefone (37) 3690-3756.

“É importante que a população se sinta à vontade, grave mesmo e se tiver algum erro, que denuncie, para que possamos identificar qual o profissional, para serem aplicadas as punições adequadas, aperfeiçoando e melhorando o serviço no dia-a-dia”, finalizou.

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