sexta-feira, 19 de Maio de 2017 09:15h Luiz Felipe Enes

Ausência de operadores de cancela prejudica usuários que atravessam a linha férrea

Em dois importantes cruzamentos da cidade, as cancelas não funcionam. Trabalhadores ainda reclamam das condições de trabalho e falta de pagamento de horas extras

A falta de operadores de cancela tem preocupado motoristas e pedestres que utilizam algumas vias de Divinópolis. Quem trafega pela Rua Mato Grosso e a Avenida Amazonas precisa ter atenção redobrada. Na passagem de nível das duas ruas faltam operadores de cancela – profissionais que indicam a aproximação da locomotiva. Em janeiro deste ano, a Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (Settrans) informou que o sistema de cancelas seria automatizado.

Divinópolis conta com sete cancelas ao longo da malha ferroviária que corta a cidade. Em entrevista concedida ao Jornal Gazeta do Oeste em Janeiro, o secretário de trânsito e transportes, Waldo Martinho, revelou não existir uma data específica para a mudança no sistema.

“Ainda não há uma data específica para a implantação desse sistema. Estamos analisando isso junto à equipe da ferrovia, mas é claro que não podemos esquecer a manutenção dessas passagens de nível. Já fizemos vistorias em todas elas e vimos o que é necessário para readequá-las”, disse o secretário em entrevista concedida no dia 12 de janeiro.

Contudo, algumas cancelas necessitam de manutenção. Esse é o caso de uma das passagens de níveis mais movimentadas da cidade. Importante ligação entre os bairros Porto Velho e Niterói, a passagem de nível é bastante movimentada, principalmente pelo fluxo diário de caminhões pesados. A cancela do lado do bairro Niterói não está funcionando e os condutores precisam ter atenção.

PRECARIEDADE

Desde fevereiro deste ano, o regime de trabalho dos operadores de cancela mudou em Divinópolis. Uma fonte que preferiu não se identificar disse que trabalhava em horários diferenciados e recebia hora extra. “Já tem uns três meses que a gente não recebe essas horas extras. Eles cortaram sem aviso prévio. Mas a gente tem que trabalhar. A partir desse mês já não tem mais. Tiveram varias reuniões e estão alegando que não vão passar mais pra nós”.

Com medo de represálias, outro trabalhador contou à reportagem que atualmente o sistema de trabalho é divido conforme a escala 12X36, ou seja, trabalha um dia inteiro por 12 horas e folga no dia seguinte, retornando posteriormente ao trabalho. O funcionário queixa que as horas extras eram um complemento a mais na renda e que o dinheiro tem feito falta.

“A gente não pode largar a cancela, para aproveitar essa hora de almoço. Costuma passar até nove, dez trens. E aqui é carreta, tem hora ficamseis, setes carretas de uma vez. Nosso pagamento está em dia, só a horas extras que foram cortadas. Eu sou pai de família e é um pão a mais na mesa”, contou o operador.

Tal situação também preocupa outro operador de cancela que trabalha em Divinópolis. Precariedade e a falta das horas extras em comprometido o orçamento. “São 12 horas ininterruptas, não tem hora de almoço, olha onde eu almoço, perto do vaso sanitário. Ai eles falam se a gente não tem outro lugar para almoçar...Aí só se for lá no meio da rua. Não tem nada, eu esquento a comida no álcool, nesse fogareiro aqui. O problema nosso maior aqui são as horas extras, isso ferrou nós. Porque quando você nunca teve hora extra, você vive de um jeito, depois que tem e corta, você tem compromisso. Eu recebo R$ 500, dando um exemplo e devo R$ 1 mil. Aí acontece o quê? Eu pago água e luz e as contas de banco?”, indagou.

Além das horas extras, o desrespeito por parte dos motoristas também prejudica outro operador de cancela. “Cortou de uma hora para outra prejudicou todo mundo. O pessoal [motoristas] invade até com a gente aqui, passa de lado da cancela. A prefeitura chegou e mudou o horário em fevereiro. Eunão tenho um horário de almoço certo, eu não posso deixar aqui se não o trem passa. Você fica 12h aqui dentro desse cubículo, faça sol, chuva, frio ou calor. Complicado”, desabafou outro operador que também não quis ser identificado.

DESORDEM

Ligação principal entre o Centro e a região dos bairros São José e Catalão, o movimento na Avenida Amazonas é constante. O trecho também é utilizado por algumas linhas de ônibus. Há quase 50 anos vivendo na região, o comerciante João Celso teme pela segurança de todos. “Tá correndo risco de ter uma batida qualquer hora. Motorista estava acostumado com a cancela baixada. Agora não abaixa mais. Eles passam direto, tem uns que nem param e está um perigo. O trânsito aqui é bem intenso. Perigo constante. Motorista passa, não presta atenção. Se a cancela funcionar, é menos perigoso pra todo mundo”, disse João que trabalha ali desde 1969.

Outro trabalhador, Raul Gonçalves Campos, tem uma barbearia quase às margens da linha férrea. As ausências de um operador de cancela e a buzina do trem preocupam. “É perigoso sim. A gente estava acostumado com a cancela abaixada quando ia passar o trem. Agora não abaixa mais. Acidente não vi não, mas perigo estamos vendo sempre. Eles [maquinistas] buzinam quando está passando no nível. Tinha que buzinar antes, bem antes. Buzina é em cima da hora. Teria que voltar o que era, abaixar a cancela na hora que o trem passa”, enfatiza.

Os próprios motoristas estão com receio de utilizar o trecho. Sem as cancelas em funcionamento, o motorista Vinicius Paulo revelou à reportagem que costuma buscar caminhos alternativos, principalmente durante a noite. “É arriscado chegar e bater no trem ou não ouvir. Tem uma galera que gosta de um som mais alto, como vai ouvir a buzina? A cancela tinha que funcionar e com o operador seria mais seguro. Eu desço a Amazonas e lá de cima eu via a cancela baixa e sabia que o trem estava passando ou aproximando. De noite, quando volto pra casa, escolho passar pela Paraná [avenida] que é mão única sentido o Belvedere. Só não dá pra continuar nesse perigo”, desabafou o instalador de ar condicionado.

A reportagem procurou a VLI!,empresa responsável pelos trens em Divinópolis. A companhia explicou que os pagamentos e manutenções das passagens de nível – uma vez por estar relacionada ao trânsito - competem exclusivamente à prefeitura de Divinópolis. Nossa reportagem acionou a prefeitura. Em contato telefônico, a reportagem foi informada que os operadores de cancela não recebem mais horas extras devido à modificação de horários. Os funcionários trabalham na escala 12X36 – trabalha um dia 12h e folga no dia seguinte, retornando às atividades no dia posterior o descanso. Em relação à implantação do sistema eletrônico de cancelas, a prefeitura ficou de encaminhar resposta, mas até o fechamento desta edição, a reportagem não obteve resposta.

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