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Navegar é preciso

Ômar Souki

Em um mundo açoitado por tormentas, nossas vidas podem também transformar-se em um mar revolto. São as brigas, as dívidas, as doenças, os acidentes, as mortes etc. Se largarmos o barco à deriva, o nosso existir passa a ser apenas uma luta pela sobrevivência e nada mais. Mas, como afirma Fernando Pessoa, em seu famoso poema: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Mais importante do que viver é navegar: “viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo”. Não podemos “deixar a vida nos levar”, mas sim, fazer da nossa existência uma obra de arte. Não importa quais sejam os desafios é preciso navegar rumo a um ideal, mesmo que para isso tenhamos de sacrificar a própria vida.

Outro trecho torna isso mais claro: “Só quero torná-la (a minha vida) de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso”. Essa parte me fez lembrar de uma frase intrigante de Jesus: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem a perde por causa de mim, vai encontrá-la” (Mateus 16, 25).

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“Salvar a sua vida”, significa dedicá-la somente a apagar os incêndios que pipocam dia após dia. E, “perdê-la por causa de mim” é crescer espiritualmente realizando obras em benefício dos outros seres humanos. Logo depois, Jesus esclarece: “De que adianta à pessoa ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?” (Mateus 16, 26). É de fundamental importância colocar a luta pelos bens materiais em perspectiva, jamais nos descuidando dos interesses da alma. Por pior que sejam as condições externas e a luta pela sobrevivência, ao abrirmos nosso coração para a espiritualidade—ao navegarmos junto a Jesus—encontramos a paz interior.

“Houve uma grande tempestade no mar, de modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, estava dormindo. Os discípulos se aproximaram e o acordaram, dizendo: ‘Senhor, salva-nos porque estamos afundando!’” (Mateus 24-25).   Jesus atende ao pedido e acalma o mar. Mesmo quando estamos quase naufragando no oceano da vida, podemos optar por perseverar e prosseguir com firmeza rumo a nossa meta—o encontro pessoal com o Divino Mestre—aquele que tem a força e o poder para fazer com que o vento e o mar lhe obedeçam. Navegando com segurança, conseguimos nos esquecer um pouco de nós mesmos e nos dedicarmos ao bem comum.

Quando isso acontece, constatamos que, de fato, o poeta tinha razão ao afirmar que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Mais importante do que simplesmente existir é dedicar-se a um propósito maior do que nós mesmos.

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