O conto do meu primo Gilberto

       

       Hoje este conto não foi escrito por mim, mas por uma pessoa muito importante em minha vida, Com certeza meu primeiro amigo, primo e irmão, aquele das primeiras aventuras.

        Este meu primo Gilberto sempre amou os animais em especial os cachorros, sempre digo que se não fosse dentista com certeza seria veterinário e dos bons.

        Uma das minhas primeiras lembranças de criança era ir com meu primo na Rua Goiás com Independência para comprar pintinhos, aqueles amarelinhos, me lembro do carinho que o Gilberto tinha com os bichinhos. Lembro até um dia que minha tia Alice, encima de um poderoso tamanco esmagou um pintinho, Gilberto foi a loucura pulando e rodopiando num choro só, minha tia a essa altura já foi dizendo: Pode deixar vou costura-lo e tudo vai dar certo. Kkkk     

         O conto do primo Gilberto:

        Sempre gostei de bicho, desde minha infância tive vários. Em homenagem a eles, especialmente  aos cachorros ,resolvi escrever esta crônica, para que a memória tardia não nos deixasse esquecê-los. Penso que meus familiares recordarão de todos com saudades.

Vamos lá:

Rink: Era um policial bravíssimo, que veio para junto de nós por intermédio de meu pai, Hoje me senti muito triste, meu cachorro Chitaro se foi...

com o objetivo de guardar nossa casa no período da construção na antiga Av. Independência 321 .  Na obra tinha já um portão com forma de grade e pontas de flecha. Todos que passavam pelo passeio eram afugentados por ele. Por último, Rink quebrou a louça do lustre de bronze que meu pai havia comprado para a sala de visitas da nova casa, numa loja em Belo Horizonte. Quando a casa ficou pronta, meu pai o doou, pois bravo do jeito que era não poderia conviver conosco. Eu tinha nesta época de 4 para 5 anos, pois mudamos para esta casa nova em 1970.

Obs: O lustre de bronze, o qual me referi, encontra-se hoje na capela do sítio.

 

Rex: Meu pai gostava de cachorro da raça policial, pois eram de fácil adestramento. Este era de pelagem clara, meia amarelada, mais dócil que o Rink, mas bravo também. Meu pai construiu um caramanchão no sítio era de bambu do tipo amarelo, onde hoje fica o poste central da praça do sítio. Este caramanchão era o canil do Rex, naquela época era comum aos domingos a família se reunir, tias, tios e primos, era uma festa só no meio de muita bebedeira de vinho sangue de boi e churrascada. Em um desses dias para agradar o Rex, meu tio Antônio Cesário ,resolveu levar um pedaço de carne de churrasco para o dito cão, mas, o danado do cachorro preferiu invés do delicioso churrasco abocanhar a carne branca e flácida do  braço esquerdo do tio, ai foi um Deus nos acuda, acabou a festa e partiram todos para o SANDU... socorrer meu tio estrupiado. 

Libel: Era uma pequinês, preta e branca. A primeira cachorra nossa de estimação. Quando cheguei em casa, ela estava deitada debaixo da mesa da sala de jantar, não me esquecerei desta cena  nunca mais. Mas, ficar dentro de casa durou pouco, pois naquela época,não havia pet shop, era nós que tínhamos de dar banho. Então, quando estava limpinha ia para dentro de casa, do contrário, só no terreiro ou no beco. Teve uma vez que ela intoxicou com uma comida e começou a inchar, ficamos todos atordoados, pois já era noite, e não achávamos um veterinário com facilidade. Assim meu pai a pegou e disse: Vamos procurar o Mauro, grande amigo e famoso farmacêutico. E assim tudo se resolveu, o Mauro a pesou com uma das mãos meio “pros cocos”  injetando um antialérgico. Tudo resolvido!

         Outro fato engraçado que acontecia sempre com a Libel era o seguinte: Dormíamos eu, Ricardo e meu saudoso irmão Bruno no último quarto da casa, hoje o da minha mãe, a cama do Ricardo era a do meio, abaixo da janela. Ricardo tinha um pigarro miserável agarrado na garganta.  Toda manhã, ele acordava e meio que para me irritar aspirava com toda a sua força um catarro , provindo de suas entranhas e o escarrava no beco... gritando : Líbel! Líbel! A cachorrinha chegava e lambia toda aquela gosma, às vezes verde, outras amarelas. Eu me retorcia na cama, agonizando de raiva e ele dizia: É CÁLCIO GILDO, É CÁLCIO!!!   

 

Lua: Era uma Dálmata muito animada. Um dia estávamos saindo da casa da minha Tia Adeláide em Belo Horizonte, já na hora de virmos embora para Divinópolis e no portão surgiu esta cachorra, linda , pulando e brincando conosco, provavelmente foragida de alguma moradia por perto. Meu pai procurou pelo dono, meio que não querendo encontra-lo, e de súbito, abriu o porta malas do carro e acolheu a cachorra. Vamos, disse ele, temos uma nova cachorra para o sítio. Esta tinha uma qualidade especial: adorava jogar bola!!!

Little : Este basset ganhei de um dentista amigo do meu pai. Quando fomos busca-lo o endereço era um apartamento no bairro sidil,  ficamos chocados com o grande número de cachorros, devia existir uns dezoito, loucura.  Escolhemos o Little e fomos embora .... povo doido!!!

 

Brutus: Era um Doberman, adquirido pelo Bruno. Cão de guarda, protetor. Ficava sempre ao redor da casa do sítio quando o soltávamos à noite. Certa vez começou a latir muito forte durante a noite, fomos averiguar ele estava  ao redor da piscina, de frente para uma cobra cascavel lhe dando vários botes , sem conseguir acertá-lo nem uma vez.Cão esperto!!!

Já idoso, amuou num canto e não conseguia mais levantar, chamamos o veterinário para medicá-lo, mas já era sem tempo, foi sacrificado , fazendo antes do veredito final , o sinal da cruz.

 

Lala: Era uma poodle inteligente, intrigante e aborrecida às vezes. Era de meus sobrinhos Pedro e Léo. Na falta de meu pai a Lala foi ficando na casa de minha mãe para fazer companhia. E fez muita companhia. Certa vez no sítio, Lala tomou um coice do meu cavalo Valente na cabeça. Desmaiou e ficou internada por uma semana. Implicava muito com minha mãe, pois quando esta saía de casa e a deixava sozinha, ela ia até o cesto de papel higiênico do banheiro e espalhava a papelada pela casa. Isto quando não fazia xixi em cima da cama de minha mãe. Até hoje escuto o timbre da voz de minha mãe chamando pela Lala, .....LAAAAALA ....LAAAAALA mais ou menos o mesmo tom da Renata chamando pelo Tobias ......TOBIIIIIIIIAS .....TOBIIIIIIIIAS, haja ouvido!!!!  Mas respeito mesmo, a Lala tinha era do Bruno. LALA!! PRA CASINHA!!Morreu afogada na piscina do sítio.

Além dos cachorros, tive outros bichos. Um lagarto que se chamava Clóvis que apanhei no sítio. Uma galinha da cabeça pelada que ganhei da empregada Maria numa visita a sua casa no Cacôco. Esta galinha era protegida pelo seu Antônio Pardal, caseiro do sítio, que a vigiava para ninguém matá-la pois nos domingos era dia de frango no almoço. Tive também um carneiro, que eu ganhei do tio Anísio para matarmos no Natal e eu não permiti que o matassem, viveu uns 5 anos no sítio. Um dia ganhei  um veado do tio Roberto, trouxe das suas andanças como tratorista por este sertão mineiro. Amamentei este veado no beco por muito tempo passando depois para leva-lo para pastar no quintal da casa de dona Conceição costureira, em frente de nossa casa, hoje onde existe um estacionamento onde o Manoel guarda o carro. Este veado viveu num cercado no sítio por muito tempo. Um certo dia meu pai foi matar um porco, e com o grito do bicho  o veado pulou o cercado e nunca mais foi visto. Já estava adulto e galheiro.

         Lembrança boa tenho também de meu pai, que numa certa noite chegou em casa me relatando que a pata do sítio tinha dado 13 patinhos. Arregalei os olhos ...de tanta alegria... e ele disse: Quer ir lá ver? Eu respondi: Agora? Me colocou no carro e fomos até o sítio. Chegando lá, com a lanterna acesa fomos até o galinheiro ali  num cercadinho de tela estava a Pata, toda matrona, deitada sobre os 13 filhotes. Fui até lá e coloquei a mão no ninho e vi todos eles. Tomei umas boas bicadas  mas não me importei, tamanha era minha felicidade. Me recordo da frase do seu Antônio Pardal, nosso caseiro( que óbvio já estava do nosso lado) : “PEGA MUITO NÃO , SENÃO NÃO VINGA!!!

Retornamos para casa... adormeci o sono dos santos... tamanho o afeto recebido.

Mas afinal de contas, não comecei esta crônica para me despedir do Chitaro? 

 

Chitaro : Ganhei este cão Fila do Seu Newton, meu sogro,era filhote mas já veio com o nome, que lembra Chita, como os africanos nomeiam os leopardos. O nome fazia justiça ao tamanho que o cachorro se tornara. Lembrava um leopardo. Minha mão espalmada não cobria nem a metade de sua cabeça quando o afagava na chegada do sítio, sempre altivo e feliz. Viveu conosco 12 anos, seus filhotes estão espalhados por este mundo, dentre eles um está com o Miltinho Azevedo, amigo de meu pai de pescaria e hoje muito amigo do meu sogro. Miltinho gostou tanto do Chitaro pai que colocou o mesmo nome no filhote recebido. Chitaro era um cachorro dócil. Nunca tive medo dele, dizem que quem ama não teme,  pode ser!!! O relacionamento de um cão e seu dono geralmente é de um extremo respeito. É uma relação onde os seres humanos deveriam tomar como exemplo... sem oportunismo, sem troca de interesses, sem julgamentos, sem mágoas, relação de silêncio, onde a única verdade existente é de um AFETO correspondido.

Muito obrigado meu Deus, por ter me dado a oportunidade de ter vivido 12 anos com meu cão CHITARO.                                                                   Gilberto Rachid 15/05/2017

 

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