ACORDEM ENQUANTO É TEMPO.

Desconheço, na história do mundo moderno, democracia que tenha sido avisada sobre futura punhalada que viria a receber. Nicolas Maduro não se elegeu prometendo perseguir opositores nem atacar a incômoda imprensa. Até hoje, inclusive, não admite seu autoritarismo.

Recep Erdogan aproveitou-se da tentativa de um golpe para implantar sua ditadura via contragolpe. Eu mesmo caí em sua lorota em 2016, quando um grupo de militares turcos tentou derrubar o presidente. A vítima transmutou-se em algoz, destituiu juízes, domesticou a imprensa, martirizou oponentes. Hoje Erdogan massacra o povo curdo.

Hitler jamais discursou a favor de um Estado autoritário. Pregava a democracia e jurava defender os interesses do povo alemão. Gente boa caiu nessa conversa. No Brasil, a obra de Élio Gaspari nos mostra que, de Castelo Branco a Figueiredo, os cinco presidentes do período de ferro negavam que o regime fosse ditatorial.

Os deputados Daniel Silveira (federal) e Rodrigo Amorim (estadual), ambos representantes do Rio de Janeiro, jamais se declararam anti-democráticos. Muito pelo contrário, aliás. Porém, suas atitudes demonstram o contrário.

A dupla ficou famosa durante o período eleitoral de 2018, quando posaram em campanha quebrando uma placa com o nome de Mariele Franco, vereadora assassinada pela milícia carioca (esse ódio a Mariele será tema de outras colunas).

Na última sexta feira, suas excelências acharam por bem invadir uma escola para, segundo os próprios, realizar certa “vistoria”. Sem autorização, adentraram ao Colégio Pedro II, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro e passaram a procurar qualquer atividade política. Fotografaram e questionaram, por exemplo, um mural que exibia notícias de jornal relativa a mortes de jovens negros no Rio.

Importante ressaltar: dois parlamentares eleitos pelo voto democrático invadiram uma escola para monitorar a livre expressão da opinião. Eu gostaria de lembrar aos senhores Daniel Silveira e Rodrigo Amorim que esse tipo de barbaridade foi cometida pelas SA e SS (polícias nazistas) e pelo baixo clero do Exército Brasileiro durante a ditadura militar, só pra ficar em dois exemplos mais fáceis de se buscar.

O Movimento Brasil Livre – MBL – já havia tomado esse tipo de atitude há alguns meses. Recentemente, se declarou arrependido.

Tal atitude é uma barbaridade, violência, safadeza inacreditável. Fez muito bem o reitor do Colégio Pedro II ao reagir, questionar a dupla de canalhas e acionar a Polícia Federal.

Gente como essa está aproveitando a sensação de insegurança causada por um país desigual para promover atos fascistas. Ninguém a sério poderia negar que a invasão de escolas para vigiar opinião seja tipicamente fascista, não é mesmo?

Estejamos atentos, pois estão nos vendendo proposta de segurança e corrupção zero a troco de fascismo, perseguição a opinião clara e fim dos princípios democráticos. E, pior, o resultado das ditaduras, historicamente, não é o fim da corrupção, conforme se pode facilmente comprovar lendo meia dúzia de livros.

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