BOLSONARO, O ANTI-ESTADISTA.

Se há uma personagem com presença recorrente nesta coluna, não é por falta de assunto por parte do reles escriba, mas por excesso de oferta de material pelo presidente do Brasil.

Uma das características marcantes dele, a meu ver, é a total ausência de comportamento de estadista. Jair Bolsonaro parece não estar ciente de ter trocado a posição de inexpressivo deputado pela de Chefe de Estado. Houvesse compreendido seu novo papel, não trataria as relações internacionais como faz regularmente.

Explico.

Ao vestir a faixa presidencial, você passa a falar em nome de um país. Embora suas convicções pessoais – de políticas a religiosas, por exemplo – de certa maneira influenciem suas decisões, é fundamental abrir mão do que quer que seja em troca do interesse coletivo.

Uma vez eleito e empossado, o chefe da nação assume compromisso maior do que o de campanha, abraça a obrigação ampliada de ser o presidente de todos os cidadãos. Daí a diferença entre o presidente e o candidato: este tem lado e abrange um público restrito, aquele é imparcial e cuida de todos.

O estadista não faz campanha para determinado candidato a presidente de outro país. Não combina com o que se espera dele, além de violar todos os princípios de diplomacia. Digo mais: quando um Chefe de Estado assume determinado lado na disputa política em território estrangeiro, coloca em risco a economia.

Com que direito Jair Bolsonaro recusou o convite para a posse do presidente da Argentina, decisão baseada em antipatia ideológica? Ora, fosse ele convidado para a festa de aniversário de Alberto Fernandez, poderia recusar por não gostar dele. Como presidente do Brasil, teria que felicita-lo pela vitória e, sim, comparecer ao evento de posse num dos países mais importantes para nós do ponto de vista comercial.

Jair Bolsonaro repetiu, com louvor e maior empolgação, a mesma conduta, agora com relação às  eleições dos EUA. Escrevo esta coluna ainda sob o constrangedor silêncio do Brasil, que ainda não cumprimentou Joe Biden vinte e quatro horas depois da confirmação da vitória do democrata.

O coração de Jair pode estar partido pela derrota de Trump, porém sua sofrência não lhe garante o direito de chutar a diplomacia. Essa atitude é antidemocrática, é estúpida do ponto de vista econômico e denota sabujice pura.

Conduzindo a conversa para termos práticos, em que resultou essa adulação de Bolsonaro aos EUA? Respondo: nenhum acordo comercial; abrimos mão da exigência de visto para cidadãos norte-americanos sem nenhuma reciprocidade; assistimos alta na taxação do nosso aço e etanol exportado para os EUA; abrimos mão de privilégios na OMC (Organização Mundial do Comércio) para uma indicação à OEA (Organização dos Estados Americanos) que não aconteceu.

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