CALA A BOCA, ANA PAULA DO VÔlEI (e outros racistas também)!

Os EUA aparecem novamente como centro de uma questão fundamental para as relações humanas: a raça. Há mais de meio século Martin Luther King Jr. morreu para que suas ideias semeassem e forçassem seu país a igualar, perante a lei, seres humanos de diferentes tonalidades de pele.

Ocorre que lá, como cá, nem sempre as leis “pegam”. Trago aqui a título de exemplo alguns dos muitos casos de pretos inocentes mortos por policiais brancos recentemente.

Em 2012, Trayvon Martin, de 17 anos, caiu morto pelo tiro de um vigilante branco em Sanford, Florida. A vítima estava desarmada. Embora o assassino tenha sido absolvido, o crime produziu o movimento Black Lives Matter – Vidas Pretas importam.

A vida de Eric Garner, homem preto que vendia cigarros sem possuir licença em Nova York, foi ceifada por um policial branco em julho de 2014. O golpe “gravata” de braço foi mantido até o sufocamento do desarmado Garner, previamente dominado pelo uso de máquina de choque. Mesmo a desesperada súplica “Não consigo respirar!” foi inútil para interromper o estrangulamento da vítima.

No mesmo ano, Michael Brown, jovem preto de 18 anos da cidade de Ferguson, entrou vivo e desarmado numa discussão simples com um policial branco. Saiu sem vida. Seu corpo torrou no sol durante mais de quatro horas até ser resgatado.

Há poucos dias, George Floyd repetiu o brado aflito de Eric Garner, implorando pelo direito de respirar. Preto, despossuído de armas e sem reagir à abordagem, foi subjugado pelo joelho covarde de um policial branco, compondo pavorosa cena gravada por câmeras de vigilância e celulares de transeuntes que imploravam pelo fim da barbaridade. A longa tortura acabou junto com a vida de Floyd.

Os casos mais próximos na cronologia são escancarados pelos aparatos tecnológicos, impedindo que a culpa seja debitada às vítimas, donde a gente imagina o que ocorre onde não alcançam os olhos eletrônicos.

A polícia brasileira se comporta da mesma forma ou pior. Senão, vejamos nossos próprios exemplos:

Ágata Félix, 8 anos de idade, preta, pobre, mal teve tempo de se assustar com o tiro de fuzil que a matou dentro de uma van de transporte público em outubro de 2019 no Complexo do Alemão. Em sua defesa, o policial militar autor do disparo alegou ter tentado atingir uma dupla de motoqueiros que passava próximo. O crime daqueles que escaparam, ninguém sabe. Só se sabe que o policial tentou matar dois inocentes e, errando, atingiu outra insuspeita.

A cabeça de Kauê Ribeiro, 12 anos, preto, pobre, serviu como alvo para um policial militar no complexo do Chapadão em setembro de 2019. A título de confirmar a crueldade, os policiais arrastaram na rua o inerte cadáver até a viatura blindada conhecida por “caveirão”, famosa ao mesmo tempo pela valentia contra miseráveis e pela imprestabilidade no combate ao crime.

Em junho de 2018, os pais que escolheram o nome de Marcos Vinicius, nascido e quase crescido preto e pobre, enterraram o filho aos 14 anos de idade, no Complexo da Maré. O estudante não se conformou antes do suspiro final, os jovens olhos voltados para a mãe, a voz inocente e fraca se referindo ao policial militar que o alvejou na barriga: “Ele não viu que eu estava com roupa da escola?”

Cauã Alves de Almeida, de 16 anos, teve a vida interrompida a partir de um tiro no rosto em dezembro de 2019, na Favela Alba, em São Paulo. Ele estava desarmado.

João Pedro, 14 anos, preto, nem sabe porque morreu. Antes de expirar pela última vez, só soube que a polícia invadiu a casa em que estava, no Complexo do Salgueiro, jogando granadas e distribuindo tiros de fuzil. Um desses entrou em suas costas. Não bastava matar um garoto desarmado, tinha que ser pelas costas.

Nenhum desses casos pode ser chamado de tragédia nem ser justificado por erros. São crimes cuja razão encontra origem na escravidão dos pretos africanos por europeus e americanos do norte, centro e sul.

Eu não me comovo com depredações e vidraças quebradas pelo povo preto norte americano que, cansado de apanhar, reage. A violência do racismo precisa ser escancarada, jogada nas telas de TV.

Não ser racista é insuficiente. A gente precisa ser anti-racista e gritar isso bem alto, levantar o braço com o punho fechado dos panteras negras e reagir. Se você é branco como eu – branco para os padrões brasileiros, digo –, reaja à altura.

Reaja, por exemplo, dizendo pra gente como Ana Paula do vôlei: cala a boca, racista!

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