CHARLATANISMO CORPORATIVO.

É bem provável que você nunca tenha ouvido o termo “charlatanismo corporativo”, que eu criei. No Google não encontrei mais ninguém usando o termo, então posso assumir sua paternidade.

Charlatanismo é sinônimo de vigarice, trapaça, logro, enganação. Ao longo das últimas duas ou três décadas, aparentemente, esse tipo de comportamento surgiu como reação ao protagonismo dos trabalhadores e a suas conquistas. Dessa forma, como o empregador não podia mais simplesmente impor jornadas de trabalho abusivas e salários vergonhosos, além de ser obrigado a garantir benefícios, o mundo corporativo passou a usar táticas para convencer seus empregados a se subjugar voluntariamente.

Posso listar alguns exemplos de aplicação dessa estratégia:

  • Substituir termos chatos como “empregado”, “funcionário” por “colaborador” ou “ajudante”. É uma forma de reduzir a impressão de opressão que, obviamente, permanece a mesma.
  • Pregar sustentabilidade e prudência ao mesmo tempo que recompensa resultados de curto prazo e assunção de riscos pessoais fora da política oficial, de maneira que as companhias se beneficiam dos atos irregulares dos empregados e, ainda assim, mantêm o poder de puni-los se a coisa se torna pública.
  • Assumir discurso de modernidade, empenhar-se em divulgar imagem de inovação enquanto pune erros honestos e impede a criatividade dos funcionários.
  • Convencer os empregados que folgas, férias e tempo livre são coisas para os fracos, motivo de vergonha e arrependimento, obrigações a serem cumpridas. O bom funcionário dedica cem porcento do tempo ao trabalho.
  • Persuadir a turma a se sentir valorizado por ser chamado para reuniões fora de hora ou em finais de semana, mesmo que não se tratem de casos emergenciais.
  • Não incentivar o desenvolvimento de planos que resolvam grandes problemas humanitários, mas garantir que eles lutem exclusiva e apaixonadamente pelo lucro da empresa.
  • Envolver os trabalhadores a tal ponto que eles sigam cegamente as orientações dos superiores e as defendam mesmo contra seus valores pessoais.

 

Isso não é uma oposição ao encarreiramento, à busca de conquistas profissionais. Eu mesmo fiz carreira numa boa, sem pregar nem aceitar o charlatanismo corporativo. Querer ser o melhor na profissão é legítimo e admirável. O questionamento aqui é sobre aceitar que a empresa assuma todos os espaços de sua vida, inclusive os mais importantes.

As novas gerações não topam mais esse tipo de relacionamento. Empresários e gestores devem se preocupar com isso e mudar suas estratégias reais.

Tenho tanta preguiça de gente  preguiçosa quanto desprezo por escravos voluntários.

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