DOUTORES DE CRISTO.

Diante de determinados comportamentos de juízes e promotores, fico pensando como seria bom se dessa gente fosse exigido cursar determinadas matérias diferentes daquelas relacionadas ao Direito. Um pouco de entendimento de sociologia, antropologia e história, por exemplo, não faria mal.

Ademais, experiência de vida fora da bolha tornaria Suas Excelências um pouco mais próximos da realidade humana. Muitos deles chegaram aos cargos após anos de estudos bancados pelos pais, sem nenhuma vivência profissional ou social além daquelas dentro de suas castas sociais.

Vivemos um tempo em que o presidente da República promete escolher o próximo Ministro do STF tomando como principal requisito a religião do candidato. “Um deles será terrivelmente evangélico”, garantiu Bolsonaro.

Nessa onda, temos entre as celebridades judiciárias sua Excelência Marcelo Bretas, para quem o livro mais importante de seu gabinete é a Bíblia, não a Constituição.

Recentemente incluído em tal moda, Dr. Benedicto Abicair, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, determinou a “suspenção” (assim mesmo, com cedilha! Faltaria também português nas provas de Suas Excelências?) do especial de Natal do Porta dos Fundos.

Todo mundo já sabe, mas não custa lembrar que o humorístico trazia uma sátira de Jesus Cristo, apresentando-o como homossexual. Foi o que bastou para os cristãos mais fanáticos, entre eles o extremamente conservador Centro Dom Bosco, se arrepiassem a ponto de entrar na justiça para pedir CENSURA em 2020.

Não sei se os defensores de Cristo assistiram o especial de Natal do mesmo Porta dos Fundos de 2018, no qual Jesus é caricaturado como machista e beberrão. Fato é que nem isso os incomodou tanto quanto aponta-lo como amante de outro homem.

Até aí nada surpreendente, uma vez que os cristãos historicamente representam sua maior figura com o biotipo de um europeu, olhos verdes, pele clara, cabeleira longa, embora obviamente essa descrição não corresponda em nada ao homem galileu de dois mil anos atrás.

Por outro lado, que o judiciário assuma tais preconceitos e determine proibição a uma produção artística trinta anos depois do fim oficial da censura, é de assustar. Merece muito mais do que reprovação, pede reação de todos que pretendem viver em democracia, mesmo daqueles que não gostam do Porta dos Fundos e, inclusive, dos cristãos não fanáticos.

Afinal, que mal tem ser gay? Onde os cristãos se sentiram ofendidos com a brincadeira?

E mais: ninguém está obrigado a assistir o Porta dos Fundos. Você só aperta o botãozinho se quiser. Não gostou, assista outra coisa. O que não se pode aceitar é que alguém pretenda proibir que outro tenha acesso a determinado conteúdo porque não se concorda ou se sente ofendido.

Democracia é tolerância. O judiciário existe para evitar que gente feito o Centro Dom Bosco impeça a produção e divulgação de ideias, materiais, obras artísticas ou pensamentos. Não se espera que os fanáticos sejam sensatos, porém do Poder Judiciário se aguardam atitudes contrárias à estupidez do radicalismo.

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