E AGORA, JAIR?

Este 24 de abril tem o tamanho daquele 17 de maio de 2017. Aquele deu em nada e nós tivemos que “desver” a imagem do deputado Rocha Loures carregando mala de dinheiro para Michel Temer e “desouvir” Aécio Neves negociando ilegalidades com Joesley Batista.

Ambos concluíram seus mandatos sem maiores incômodos. O ex-presidente aposentou-se da vida pública. O ex-senador foi eleito deputado federal.

Hoje, a bomba em Brasília explodiu não por meio de conversa gravada, mas através de um pronunciamento ao vivo. Demissionário, Sérgio Moro levou a público crimes graves cometidos por Jair Bolsonaro, entre eles a tentativa de força-lo a aceitar a indicação de um Diretor Geral da Polícia Federal que desse, ao Presidente da República, informações a respeito de investigações realizadas pelo órgão.

É um escândalo tão GRANDE que preciso escrever em maiúsculas.

Moro foi juiz federal por mais de vinte anos. Trabalhou em casos da Operação Lavajato sob três presidentes: Lula, Dilma, Temer. Nenhum deles, nas palavras do próprio ex-juiz, tentou interferir nas investigações. Nenhum ligou para o Superintendente da PF em Curitiba a fim de tirar informações sobre seus casos. Estendo a mesma afirmação a todos os presidentes pós-redemocratização, pois também não há notícias de que José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique tenham metido o nariz do lado de dentro do balcão da PF.

Sérgio deixou claro que Jair Bolsonaro quer controlar a Policia Federal por interesses próprios. E quais seriam esses?

Isso ele não disse, mas podemos compreender usando um mínimo de lógica. A Polícia Federal está prestes a concluir inquérito sobre a deflagração de notícias falsas. Sabe-se nos bastidores que as descobertas vão bater em gabinetes importantes, possivelmente de gente da “família presidencial”.

Pra encaixar outra peça, esta semana a Procuradoria Geral da República  encaminhou à mesma Polícia Federal pedido de investigação das manifestações contra a democracia do dia 19 de abril, que pediam AI-5, fechamento de Congresso, fechamento do STF e a implantação de uma ditadura. Jair Bolsonaro participou, entusiasmado, desse evento em Brasília.

O que tem de complicado nesse último caso é que foi tudo organizado. Numa simples observação, qualquer um vê que as faixas carregadas pelas pessoas eram padronizadas, provavelmente produzidas por um mesmo fornecedor. O que será investigado agora é quem pagou por isso, quem organizou a tal parada. E, pra quem sabe encaixar as coisas, não é difícil imaginar quem, próximo do Presidente, seja capaz de ter feito isso.

Os filhos do Presidente já são investigados por esquemas de rachadinha. Se as duas investigações a que me refiro acima chegarem a eles, a água ultrapassa o pescoço. Daí, possivelmente, o ato desesperado de Jair em dominar a Polícia Federal.

Polícia Federal é órgão de Estado, não pertence ao governo e muito menos ao governante. A coisa vai mal e só há salvação se as instituições acordarem. Será que teremos outro caso Temer/Aécio ou dessa vez vamos deixar de aceitar o crime esfregado na nossa fuça?

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