EDUARDO BOLSONARO ESTÁ NOS TESTANDO.

A gente pode e, inclusive, deve ter opinião sobre aqueles que nos governam. Em geral – tirante os fanáticos situacionistas ou oposicionistas e partes interessadas –  as pessoas ora concordam, ora discordam das medidas e posições políticas.

É legítimo entender-se a favor ou contra privatizações, por exemplo; desejar um Estado mais liberal economicamente ou de certa forma intervencionista; concordar com políticas de incentivos fiscais ou considera-las ruins etc.

Por outro lado, há algumas linhas que, uma vez extrapoladas, nos conduzem ao patamar do inaceitável. Entre tais fronteiras bárbaras está a defesa de uma ditadura, como tem feito regularmente o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro.

“Ele se retratou sobre defender o AI-5”, diria alguém. Sinto ser obrigado a discordar da sinceridade de tais escusas, visto que o filho do Presidente da República reiteradamente demonstra apreço pelo autoritarismo. Senão, relembremos:

  • Outubro/2018: em palestra num cursinho, prega que “pra fechar o STF [Supremo Tribunal Federal] basta um cabo e um soldado”. “Se você quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é desmerecendo o soldado e o cabo, não”.
  • 28/Outubro/2019: afirma, em discurso na Câmara dos Deputados, a partir do exemplo das ocorrências no Chile, que o governo de seu pai não aceitará eventuais manifestações contrárias e faz alusão ao golpe de 1964.  “não vamos deixar isso aí vir prá cá. Se vier pra cá, vai ter que se ver com a polícia. E se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a história se repetir. Aí é que eu quero ver como a banda vai tocar”.
  • 31/outubro/2019: sugere a possibilidade de recriação do Ato Institucional número 5, que fechou o Congresso Nacional e permitiu ao Presidente da República ter poderes quase absolutos em 1968 (vide texto a respeito em https://www.g37.com.br/blogs/bruno-quirino/bruno-quirino/afinal-o-que-foi-o-ai-5). Numa entrevista a Leda Nagle, afirmou: “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, vamos precisar dar uma resposta. E essa resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada em plebiscito, como ocorreu na Itália. Alguma resposta vai ter que ser dada.”
  • Ainda em 31/outubro/2019: publica vídeo “explicando” com mentiras históricas o que foi o AI-5: “Dilma, Lula, Franklin Martins, Marighella, Lamarca e outros trouxeram pânico e terror ao Brasil no final dos anos 1960 e início dos 70. Hoje a estratégia se repete no Chile e a esquerda brasileira está louca para trazer isso para o Brasil”

 

O golpe militar de 1964 se deu sob uma conjuntura rica de variáveis, entre elas o medo disseminado na população da instauração de um governo autoritário comunista. O fundamental apoio popular ao estabelecimento da ditadura foi criado sobre a base desse terror que, afinal, não passava de inimigo imaginário. O presidente deposto, João Goulart, sequer era de esquerda, muito menos comunista. A história não apresenta nenhum registro de que Jango pretendesse promover ou apoiar qualquer golpe, desmentindo a justificativa que gente como Eduardo Bolsonaro costuma usar para justificar a tomada de poder pelos militares.

Replicando o momento histórico, o Brasil de 2019 não questiona o resultado eleitoral nem se tem notícia de que os políticos da oposição estejam tramando um golpe contra o presidente democraticamente eleito. O que Eduardo Bolsonaro parece fazer com as repetidas incitações antidemocráticas é testar a reação da sociedade. Até onde posso ir pregando essas ideias?

É bom que a reação seja dura, corajosa e chegue a todo o povo brasileiro. Seja você eleitor de Jair Bolsonaro ou de qualquer outra pessoa, não admita o discurso antidemocrático. Considere inaceitável que um representante do povo no Parlamento, filho e porta-voz do Presidente da República, nos ameace a todos com um novo período ditatorial.

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