NÃO HÁ PROVAS DO QUE MORO AFIRMOU, MAS HÁ OUTRAS.

Sexta-feira à noite peguei meu saquinho de pipoca pra assistir o tão esperado vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, apontada por Sérgio Moro como prova da interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

Pra quem não viu, adianto um spoiler: não há provas assim tão claras a ponto de exigir a abertura de um inquérito com relação a tal acusação. Espanta-me o fato de alguém que exerceu a magistratura por mais de duas décadas desconhecer o conceito de prova. TVT

O que encontrei ali, porém, foi muito mais sério. A falta de modos, o palavreado chulo, os devaneios distantes da realidade são comportamentos incompatíveis com a posição de cada um dos participantes, mas não surpreendem, pois assim também essa turma se porta em público.

Chamaram-me à atenção, especialmente, dois temas:

1 – COVID 19

Seria injusto afirmar não se falou no assunto. completamente o assunto. Naquele  dia, a pandemia do Coronavírus já havia matado quase 3 mil pessoas no Brasil. O general Braga Neto se disse bastante preocupado com os efeitos da doença na economia. Ricardo Salles, do Meio-Ambiente, animou-se com a mídia toda concentrada no vírus para propor que aquele era o momento para se “passar a boiada” da desregulamentação ambiental.

Em duas horas de reunião as pessoas que comandam os destinos do Brasil não tocaram no assunto mais caro ao mundo no momento a não ser pra falar de dinheiro, exibindo total despreocupação ou sentimento humanitário.

Sádico, o Ministro do Meio-Ambiente sugeriu que os mortos seriam muito úteis para que o governo pudesse promover a liberação da destruição ambiental em nome de um suposto “progresso”. Ora, mas pra fazer coisa boa pro país tem que ser escondido?

Salles demonstra que a ideologia impera sobre a técnica em seu Ministério visto que, hoje, fazer mal ao meio-ambiente atrapalha o progresso. É coisa do passado o pensamento de que legislação ambiental impede o desenvolvimento. E não estou falando de preocupação com a natureza aqui, estou falando de grana. Os grandes investidores não colocam dinheiro em países que desrespeitam as normas ambientais internacionais. Em poucas palavras: o homem responsável pela proteção ambiental no Brasil é desapegado dessa obrigação e, pra piorar, não sabe que afrouxar as regras nessa área afasta investimentos, obstrui o crescimento econômico.

2 – Guerra civil

Bolsonaro propôs uma guerra civil e isso é fácil de compreender, mesmo para os mais desatentos. Examinemos as palavras exatas do Presidente:

Olha como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil. O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa  que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! (...) Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. (...) Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura!", afirmou.

Em todas as entrevistas, Jair Bolsonaro sempre justificou sua vontade em liberar as armas para que a população pudesse se defender de bandidos. Revelado o vídeo da famosa reunião de 22 de abril, o próprio Presidente revela que o objetivo não é esse, afirmou que pretende armar o povo para que este reaja à bala contra instituições fundamentais da democracia.

Ou há outra interpretação possível? O que significa querer que o povo pegue em armas para desobedecer a medidas impostas por governos legitimamente instituídos, medidas tais originadas da ciência e mundialmente aceitas como aptas a evitar milhões de mortes? Parece-me um evidente plano de implantação da ditadura, embora ele negue peremptoriamente.

Tática velha e conhecida essa de afirmar que está protegendo um bem quando a intenção é destruí-lo. Anunciando medidas que podem incentivar uma guerra civil, lustra-as com a graxa de nobre objetivo. Nada original, aliás. Os golpistas de 1964 afirmavam justificaram o fim das eleições, a perseguição de quem pensasse diferente, a censura à imprensa, a cassação de mandatos opositores, a tortura e a morte como atos para proteger a democracia.

Isso tudo é a anti-lógica, o mundo bizarro. Deveríamos estar alertas para a seriedade do que está se passando no Brasil.

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