NEM ÁRVORE NEM POBRE; AQUI SÓ ENTRA GENTE FINA, ELEGANTE

Hoje eu vi uma foto do Mineirão antes da reforma e me bateu um saudosismo grande o suficiente pra vir aqui, neste espaço, transforma-lo em lagrimas na forma de palavras. Mas que saudade danada daquele estádio!

Não é saudosismo barato (não apenas, talvez um pouco seja sim). Há algo mais profundo e, inclusive, técnico.

Desconheço a equipe que projetou o novo Mineirão e seu entorno e, assim, seria leviano acusa-la de desconhecer as modernas referências arquitetônicas, voltadas para sustentabilidade e aproveitamento do ambiente natural.

Talvez as conhecessem e tenham simplesmente decidido ignora-las. Como não sou leviano nem muito menos especialista em arquitetura, vou me restringir às impressões como frequentador do local.

Observem uma foto aérea pré e outra pós reforma. Analise a área externa. O Mineirão era rodeado de árvores que nos proviam um ambiente agradável, fresco, adequado para a galera se encontrar antes dos jogos.

O estádio novo é cercado por uma esplanada de cimento que torna o clima inóspito, afastando o torcedor, obrigando-o a se espremer nas estreitas ruas próximas pra tomar sua cerveja sem ser cozido. Além disso, consiste numa questão social. É excludente porque naquela área agora só entra quem tem ingresso. Nem direito de curtir um bate papo aos pés do Mineirão o pobre tem, já que foi também proibido de entrar, dados os elevados preços dos ingressos.

Agora o chamam de arena. Só entra gente bacana, bem vestida, limpinha e que só apoia o próprio time se o mesmo lhe garantir vitórias. O pobre, o torcedor apaixonado, aquele abnegado, o sujeito que torce e grita o nome do time em qualquer situação foi vetado. Não pode entrar, não pode sequer beirar a “arena”.

O que explica o desmatamento? Por que substituir um agradável bosque por cimento quente? E por que ninguém pensou até hoje em destinar, sei lá, uns 20% dos lugares para gente de baixa renda? Mataram o verde, amordaçaram o amor.

Excluir a natureza e o pobre do ambiente futebolístico é uma ação horrível, do tamanho dos crimes recorrentemente cometidos pelos “donos” do futebol mundial.  

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