NOSSO BEBÊ, RECÉM NASCIDO E DOENTE

Creio já ter tratado do tema aqui neste espaço do G37, mas é tão importante que preciso falar de novo, até porque me sinto provocado sempre que assisto a uma chamada da GloboNews em que um Ministro do SFT diz: “nossa democracia é plenamente consolidada.

Excelência, data venia, isso não é verdade. Vamos recorrer a uma linha do tempo pra enriquecer a discussão.

Ano

Presidente

Forma da Eleição

% da população votante

1889

Deodoro da Fonseca

Golpe que derrubou o Imperador

0%

1891

Deodoro da Fonseca

Eleição indireta (Congresso Nacional)

0%

1894

Prudente de Morais

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

2,2%

1898

Campos Sales

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

2,85%

1902

Rodrigues Alves

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

3,59%

1906

Afonso Pena

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

1,5%

1910

Hermes da Fonseca

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

2,78%

1914

Venceslau Brás

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

2,31%

1918

Rodrigues Alves

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

1,37%

1919

Epitácio Pessoa

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

1,41%

1922

Artur Bernardes

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

0,95%

1926

Washington Luís

Eleição direta, voto aberto,  somente por homens maiores de 21 anos alfabetizados. Influência dos “coronéis”

2,00%

1930

Júlio Prestes

Não assumiu. Derrubado pelo golpe de Getúlio Vargas

5,00%

1930-1945

Getúlio Vargas

Período ditatorial

0,00%

1945

Gaspar Dutra

Primeira eleição considerada democrática

13%

1950

Getúlio Vargas

Voto permitido para maiores de 18 anos, exceto analfabetos

16%

1955

Juscelino Kubitschek

Primeira eleição com cédula fornecida pela Justiça Eleitoral

14,55%

1960

Jânio Quadros

Voto permitido para maiores de 18 anos, exceto analfabetos

17,44%

1964-1985

Generais Militares

Período ditatorial, sem eleições

0,00%

1985

Tancredo Neves

Eleição Indireta

0,00%

1989-atual

F. Collor, F. Henrique, Lula, D. Roussef, J. Bolsonaro

Eleições diretas, voto universal sem restrições

Livre

 

Observem o percentual de população que votou para presidente desde a proclamação da nossa República. Em seguida, meus comentários. 

Os números deixam muito claro que democracia é exceção na história brasileira. Nossa população só teve amplo direito ao voto – sem discriminação de renda, gênero ou grau de instrução – a partir de 1989, ou seja, ontem. Em toda nossa história republicana, não chegamos a 20% da população autorizada a escolher seu presidente até outro dia.

A minha geração se acostumou a viver sob regime democrático, a falar o que pensa, a se reunir onde e com quem bem se entender, ao livre desbunde. Nos acostumamos tanto que passamos a crer que assim sempre foi e assim sempre será.

Engano.

Nossa democracia é jovem e frágil, como demonstram os números que eu trouxe acima. Cuidemos dela como de um filho recém nascido e doente.

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