O ATEU, ESSE SER HORRÍVEL

Que tipo de sentimentos afloram em você quando alguém diz ser ateu?

Minha proposta hoje é falar sobre como a sociedade enxerga tais pessoas e tentar explicar porque nós não somos assim tão ruins quanto a maioria da população pensa.

Escrevi a sentença na primeira pessoa porque, ora vejam só, sou um desses sujeitos descrentes da existência de uma entidade espiritual superior, almas e vidas além da natural.

Em minha defesa tenho a dizer que não prego o ateísmo. Aliás, acho chato pra caramba alguém que tenta convencer os outros a seguir sua descrença. Pra mim isso é tão inconveniente quanto o religioso tentando enfiar seus deuses na cabeça dum incrédulo.

O brasileiro, em geral, detesta gente da minha (falta de) fé, o que está comprovado cientificamente. Pesquisa da CNT/SENSUS de 2007 apontou que apenas 13% dos brasileiros votariam em um ateu para presidente da República.

Observem que nenhuma outra característica do possível candidato foi apresentada e, mesmo assim, quase nove em dez respondentes afirmaram que não votariam de jeito nenhum naquela pessoa, independentemente de sua competência técnica, honestidade, histórico de realizações, caráter, opiniões sobre temas socialmente relevantes, vinculação a ideologia econômica etc.

A Fundação Perseu Abramo, em 2007, divulgou pesquisa mostrando que 17% das pessoas sente repulsa ou ódio por ateus e 25% cultivam antipatia. Novamente é importante ressaltar: a única característica da pessoa objeto do questionamento foi o ateísmo, aspecto suficiente para despertar, por si só, sentimentos tão graves.

Afinal, quem é essa figura tão abominada pelo cidadão médio brasileiro?

Não dispondo de investigação científica, usarei meu próprio caso para responder a algumas perguntas, de modo a tentar demonstrar como um ateu lida com as coisas da vida.

  • Se você não acredita em Deus, a quem recorre nas horas de aperto e a quem agradece quando obtém coisas boas?
    • R.: obviamente não me sinto à vontade pra pedir apoio nem agradecer a uma entidade superior. Curto os momentos bons, sofro nos ruins e às vezes me sinto contrariado por não ter uma instância sobrenatural para buscar socorro.
  • Como você explica o mar, o céu, a perfeição da natureza?
    • R.: minha visão é científica. Acredito naquilo que a ciência teve tanto trabalho pra estudar e demonstrar. A complexidade da natureza está inserida nesse grupo de coisas.
  • O que você pensa sobre as religiões e a fé?
    • R.: todas as grandes religiões trazem bons valores como honestidade, solidariedade, amor ao próximo, preocupação social, igualdade... Podem ser importantes na pacificação social, portanto são boas, apesar dos excessos e dos fanáticos. Sobre a fé, vejo como algo que não se explica nem se debate com argumentos. Quem tem fé, tem por que tem, portanto não discuto.
  • Quais são os valores de um ateu?
    • Desconheço uma lista de valores ateístas. O ateu pode ser bom ou mau, educado ou grosso, solidário ou egoísta, bandido ou honesto, trabalhador ou preguiçoso, machista ou igualitário... Ser crente ou descrente não está ligado aos valores cultivados e exercidos.

Por fim, só posso concluir dizendo que o sujeito que desacredita não necessariamente é ruim e, portanto, não merece tanta rejeição. É importante observar o comportamento, além da pregação. E quem diz isso não é só o descrente aqui, é o Papa Francisco que, em 2017, sugeriu que é “melhor ser ateu do que católico hipócrita”.

 

 

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