O BASEADO DO PRETO POBRE E A COCAÍNA VOADORA

Juan Manoel Santos, ex-presidente da Colômbia, não se cansa de repetir em todas as suas palestras e entrevistas: qualquer guerra contra as drogas é briga perdida. Ele o faz com o conhecimento de causa de quem presidiu o país onde se localiza a cidade que deu nome ao célebre cartel comandado por Pablo Escobar. Medellín deixou o posto de uma das cidades mais violentas do mundo para se tornar modelo de segurança e de indicadores sociais. Tudo isso em menos de vinte anos.

A parte interessante é que tal metamorfose não se deu “atirando na cabecinha” de suspeitos, como propõe o atual Governador do Rio de Janeiro, nem praticando chacinas para vingar a morte de agentes da lei, conforme declarou esta semana um deputado estadual de São Paulo. A conversão de Medellín foi consequência da ocupação dos espaços pelo Estado, substituindo a presença do traficante que garantia relativa paz, emprego e comida ao povo pobre do subúrbio.

Previamente derrotado, quando o Poder Público empreende guerra contra as drogas na verdade ataca apenas a linha de frente da organização. Abate o cidadão enjeitado fumando maconha, espanca o moleque miserável que faz aviãozinho ou atua como olheiro, eventualmente captura estrelas como Fernandinho Beira-Mar ou Marcola.

Por outro lado, jamais atinge o âmago da questão. Em tempo nenhum fere de morte a atividade do tráfico. O formigueiro nunca é destruído enquanto não se chega à rainha.

Alguns episódios recentes e próximos nos escancaram a verdade dessas afirmações. Vejamos:

Qual o final da história dos quinhentos quilos de pasta base de cocaína transportados no helicóptero do Senador Zezé Perrela? Quais a origem e destino daquela carga milionária? Ninguém amarrou a história, tudo ficou na conta do piloto.

Agora estamos sabendo que um militar, membro da delegação oficial do Presidente da República, praticou tráfico internacional usando aeronave da Força Aérea Brasileira – aqui faço uma pausa pra afastar as levianas conexões feitas com Jair Bolsonaro. Mantenhamos a compostura intelectual.

E sobre essa história, qual o contexto mais amplo? Que parte da engrenagem é o sargento que carregava os 39 kg de cocaína? A gente só conhece o meio, só viu a cena em que alguém foi pego. Mas pra enfrentar o problema seria necessário conhecer o início, o fim e os bastidores.

Somos incapazes.

O baseado do preto pobre pesa mais do que um helicóptero com meia tonelada de droga pura. A boca de fumo no morro abandonado pelo Estado é alvo dos fuzis do governador enquanto peças da estrutura do Poder Público cometem crime em viagens oficiais. Guerra perdida que só serve pra manter a estrutura funcionando e, claro, pra eleger os competentes donos de discursos tão vazios quanto empolgantes contra o crime.

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