OS CÚMPLICES DO ESTUPRADOR .

Encontra-se abundância de atos abomináveis no caso da menina de dez anos cujo sofrimento por abuso sexual acabou se tornando público apenas quando se descobriu seu estado de gravidez.

O mais óbvio é o crime sexual em si, praticado ao longo de anos, provavelmente por um tio da criança. Barbaridade, violência sem nome, atrocidade covarde, crueldade pusilânime.  Crime tão detestável quanto comum, praticado na quase totalidade das vezes por gente de casa.

Outro ato criminoso, disfarçado sob o manto da defesa da moralidade, foi praticado pela blogueira Sara Gironimi (Sara Winter), que divulgou os dados da criança a fim de incentivar uma turba de fanáticos a tentar impedir que a gravidez fosse interrompida. O aborto no Brasil é permitido apenas em dois casos: risco de vida para a mãe e gestação originada por estupro.

O terceiro foi a já citada intervenção de duas dezenas de pessoas desinteressadas do amor, despojadas de solidariedade, despossuídas de sentimento humanitário, alimentadas exclusivamente pela radical cegueira dos maníacos.

Essa gente costuma participar de passeatas contra a pedofilia, mas é incapaz de ter empatia por uma vítima desse tipo de crime.

 A sociedade brasileira vem perdendo a vergonha de expor suas excrecências, por mais absurdas que sejam. O freio civilizatório está frouxo o bastante para permitir que gente esclarecida – médicos, inclusive –, participem de um movimento dessa espécie, enfiando a faca numa ferida já grave demais, agravando o machucado cuja vítima é apenas uma menina que nasceu há dez anos.

Sabe o que poderia ter sido feito para se prevenir tal terrível acontecimento? Responderei em maiúsculas: EDUCAÇÃO SEXUAL.

Os fanáticos dizem pra você que educar sexualmente as crianças é ensina-las a transar. Mentira deles. Educação sexual tem a ver com contar para uma menina como aquela que o ninguém pode toca-la em determinadas partes, nem beijar sua boca, nem pedir que ela faça isso ou aquilo. É proteção.

Talvez o tio seja o estuprador. Com certeza entre seus cúmplices estão aquele vereador, aquela autoridade religiosa, aquele leigo “sabe-tudo” que fica horrorizado com a possibilidade de se tratar de educação sexual com crianças.

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