POR QUE ACEITAMOS O CORONEL TADEU?

Nós, brasileiros, estamos em débito com o passado. Nos restam resolver duas pendências antigas, sob pena de jamais atingirmos o nível de sociedade avançada, civilizada.

A primeira demanda é com a ditadura militar. Ao contrário dos vizinhos sul-americanos, o Brasil ocultou sujeira enorme debaixo do tapete. Embora a Lei da Anistia tenha permitido a conclusão da transição “lenta, gradual e segura” para a democracia (frase de Ernesto Geisel), não é justo que a barbaridade dos tempos de ferro sejam simplesmente esquecidas.

A segunda contenda está na dívida advinda da escravidão. Cento e trinta e um anos depois da libertação dos negros, a gente vive num país extremamente racista. Se até algum tempo o preconceito do brasileiro se apresentava disfarçado e muito se falava em racismo velado, recentemente os ratos saíram do esgoto. Os canalhas tiraram suas máscaras.

Tudo fica mais perigoso quando o racismo é praticado abertamente, sem constrangimento, por autoridades públicas. O crime cometido por quem é exemplo e forma opinião se reveste de muito maior severidade.

Por isso afirmo sem medo de errar que a selvageria praticada pelo Deputado Coronel Tadeu é extremamente grave (AQUI), constitui quebra de decoro parlamentar e não pode ser aceita por ninguém. No termo “ninguém” incluo os eleitores do patife.

Coronel Tadeu achou por bem atacar uma exposição sobre Consciência Negra na Câmara Federal. Avançou selvagemente sobre uma peça exposta, destruindo-a.

Não questionou, não discutiu, não argumentou. Atacou e rasgou a obra do chargista Latuff (ilustração desta postagem). A imagem mostrava um homem negro morto e um policial militar se afastando da cena carregando fumegante arma.

Confrontado, o deputado apresentou seus argumentos, todos aqueles que ele poderia ter exposto na tribuna, democraticamente, ao invés de cometer o violento ataque.

Deixemos o mérito para outra coluna. Tratemos aqui apenas da atitude do Deputado. Mesmo tendo sido eleito sob a égide do Estado de Direito, o Coronel Tadeu não parece sentir-se submisso à Democracia. Diante de opinião contrária à sua, agiu de maneira primitiva, descontrolada, feroz.

O Deputado, descontente com a expressão da opinião alheia, poderia ter feito um discurso, convocado a imprensa para apresentar seu raciocínio, escrito artigos para jornais ou mesmo esperneado na tribuna da Câmara.

Escolheu agredir, depredar, barbarizar.

Por que será que gente feito o Coronel Tadeu se sente no direito de avançar selvagemente para impedir os outros de expressar opinião que contrarie a sua?

Explico: essa gente está aí cometendo racismo e outras bestialidades porque nós não resolvemos bem nosso problema com a ditadura; porque permitimos que gente feito o Coronel Tadeu e tantos outros cultivassem durante trinta anos um ódio reprimido contra o sistema democrático e que, agora, ressurge apoiado por uma opinião pública carente de atenção do Estado.

É necessário que o Brasil faça essa discussão com seu passado, porque enquanto o ignora, permite o ressurgimento de fantasmas ditatoriais investidos de poder pelo próprio regime democrático. Assim, a gente se comporta com enorme passividade diante de um representante do povo que comete racismo com as próprias garras, dentro da Casa do Povo.

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