ALARME E MEDO

Há valores dos quais a gente não abre mão. Nem por cargo, salário, pressão de chefe, insistência familiar ou de amigos. Cada um tem os seus. Entre os meus estão o apreço pela democracia e a solidariedade pelos mais frágeis – fisicamente ou economicamente mais vulneráveis, por exemplo.

É por isso que escolho não manter ou criar amizade com quem defende o retorno da ditadura militar, justiça com as próprias mãos, gente preconceituosa nem falsos moralistas. Por exemplo, abandonei uma turma com quem convivia porque um dos líderes era um empresário que contava, entusiasmado, a façanha de ter contratado dois sujeitos para bater numa sua empregada que o havia acionado via Justiça do Trabalho.

Muito mais importante do que a escolha das minhas relações, porém, é a posição oficial do Estado Brasileiro. E, se me livro dos perigos ficando longe de quem quer trocar seu direito de votar pelo de se subjugar a um ditador, a população inteira do país está sob risco quando o Ministério da Defesa chama golpe militar de “marco para a democracia brasileira”.

Fernando Azevedo e Silva e os três chefes das Forças Armadas divulgaram, PELA SEGUNDA VEZ (maiúsculas são necessárias), uma Ordem do Dia exaltando o 31 de Março de 1964, a data que deu início a vinte e um anos de ditadura no Brasil.

Durante duas décadas os brasileiros foram impedidos de emitir opinião contrária à do governo, perderam cargos para os quais foram eleitos, foram torturados e mortos, assistiram o fechamento do Congresso Nacional, passaram a viver sob a terrível nuvem da proibição geral de existência livre.

Ainda que você deseje a chegada de um Salvador e, pessoalmente, sonhe com uma nova versão do quinteto Castelo, Costa e Silva, Médici, Geizel e Figueiredo, seus desejos são equivalentes às minhas opções de relacionamento: valem nada diante do interesse público e da institucionalidade.

Se um órgão oficial exalta a data inicial de um período anti-democrático num país em que a democracia é exigência constitucional, é óbvio que o alarme da ilegalidade deveria ser disparado.

Se tal órgão oficial é o Ministério da Defesa, responsável por chefiar os caras que podem mandar decolar aviões, enviar tropas ou tanques de guerra para as ruas, o alarme que deveria gritar alto é o do medo. E, você estudar História, vai entender que ditadura não faz bem pra ninguém, nem para seus apoiadores.

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