RACISMO REVERSO: O PROGRAMA DE TRAINEE DA MAGAZINE LUÍZA.

A aniversariante desta semana, nossa Constituição Federal, traz, entre seus preceitos fundamentais, “promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Foi com base nesse importantíssimo preceito constitucional que uma galera atacou o programa de trainee da Magazine Luíza assim descrito pela empresa: “Primeiro programa de Trainee do Brasil 100% voltado para negros”.

A partir daí, subiram a vergonhosa hashtag  #branco e iniciaram uma campanha para associar o referido programa a um conceito bastante heterodoxo, o racismo reverso. Segundo tal teoria o fato de uma empresa limitar o universo de um processo de contratação de empregados a candidatos de cor preta constituiria racismo. Racismo reverso, aliás.

Bom, vamos lá. Se uma empresa decide restringir a pessoas brancas determinadas vagas de emprego estará cometendo racismo? Sim, claro.

Se uma empresa pretende contratar apenas pessoas pretas em determinado processo, estará cometendo racismo? Não, óbvio.

Explico.

A Magazine Luíza justificou sua opção. O processo para contratação de trainees, com salário inicial superior a R$ 6 mil, foi inspirado por uma constatação: em seu quadro de pessoal, 53% são pretos. Quando se consideram apenas os cargos de liderança e gestão, somente 16% são pretos.

Eu acrescentaria outras razões. Segundo o IBGE, o salário dos pretos é, na média, 31% menor que dos brancos. Pretos e pardos constituem a maioria da população desempregada no Brasil, tudo isso sem falar na população carcerária.

Ora, Bruno, mas então devemos privilegiar os pretos?

Respondo: as cotas universitárias e o processo exclusivo da Magazine Luíza são muito importantes para reduzir a diferença de oportunidades entre brancos e pretos, mas significam uma gota no oceano da barbaridade histórica que relegou uma raça à condição de inferioridade. Ou seja, mesmo assim a sociedade está devendo demais.

Você não pode igualar condições desiguais. Esse, inclusive, é o espírito da Constituição quando diz que “todos são iguais perante a lei”. A igualdade só existe quando se consideram as desigualdades. Não há igualdade numa corrida de 100 metros entre um adulto e uma criança, se ambos largam do mesmo ponto.

Os pretos não largam do mesmo ponto. Os números acima citados são alguns exemplos da caracterização do racismo estrutural que, por consequência, elimina o tal “racismo reverso”.

Por que não existe “racismo reverso”? Porque os brancos não foram subjugados, escravizados, jogados à margem da sociedade quando libertos, porque não são parados pela polícia somente pela cor da pele, porque não ganham menos que os pretos quando exercem a mesma função com a mesma competência, porque não constituem a massa pobre do mundo – inclusive do Brasil.

Brancos não pagam com a vida pela falta de políticas públicas que garantam sua igualdade. É por isso que ações como essa do Magazine Luíza são corretas dos pontos de vista constitucional e humanitário.

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