TODO DIA UM PUTAQUEPARIU DIFERENTE

Seria ótimo poder variar o assunto aqui neste espaço, mas como todo dia a gente tem que gritar um putaquepariu novo, a obrigação é ser repetitivo.

Em sua parada matinal para esculhambar a imprensa e ser aplaudido pela claque antes de ir bater o ponto no Planalto, o Presidente da República hoje consumiu vinte minutos produzindo material que, para o azar de vocês, gastarei talvez três colunas para comentar. Paciência...

A fim de contextualizar, o discurso presidencial de hoje teve como tema a operação da Polícia Federal que promoveu busca e apreensão em 29 endereços de pessoas possivelmente envolvidas com um esquema de divulgação de notícias falsas. Entre eles, blogueiros, youtubers e assessores de parlamentares.  

Para esta primeira parte reservei o que considerei mais grave. O combinado é o seguinte: colo as frases entre aspas e comento a seguir.

“Obviamente, ordens absurdas não se cumpre [SIC] e nós temos que botar um limite nessas questões”.

Num grande esforço, ignoro o português ruim pra me concentrar no mérito. Nessa frase, Jair Bolsonaro claramente promete descumprir decisões judiciais que ele considere absurdas.

 

“Respeito o STF, respeito o Congresso Nacional, mas se respeito continuar sendo oferecido da minha parte, tem que respeitar o poder executivo também”.

Essa declaração traz uma construção simples de quem diz o que não pensa na primeira sentença para abrir o coração na segunda, a partir de uma conjunção adversativa (no caso, “mas”). O chefe do Executivo condiciona o respeito que, por exigência constitucional, deve aos outros dois poderes a algo que, embora não deixe claro, transmite nas entrelinhas.

 

“Repito: não teremos outro dia igual ontem. Chega! Estamos no limite. Estou com as armas da democracia na mão. (...) Não mais ousarão atingir direitos individuais. Chega!”

“Acabou, porra! (...) Acabou! Não dá pra admitir mais atitudes de certas pessoas individuais, tomando de forma quase que pessoal certas ações.”

Esses destaques acima constituem o ponto mais sério da coisa. Aqui, Jair Bolsonaro ameaça diretamente a democracia ao insinuar que, se o Poder Judiciário tomar decisões que lhe sejam incômodas novamente, ele não as aceitará. Adicionalmente, conclama seus admiradores a participar.

 

Num ambiente de respeito às instituições, isso não se faz. Eventual discordância de determinação judicial se resolve no limite da lei, por meio de recursos e não bravateando ou, mais sério ainda, impondo ameaças.

O “dia igual ontem” a que Bolsonaro se refere foi simplesmente um dia comum, em que a Polícia, por determinação judicial, apurou possíveis crimes. Tudo dentro da lei: mandados, respeito ao procedimento previsto em lei e nenhuma violência.

Inaceitável dia de ontem é aquele em que policiais atiram granadas numa casa cheia de crianças e ferem mortalmente, por trás, um menino pobre e negro de 14 anos de idade.

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