Carta aberta a um hospital.

Cara coordenadora, informação é tudo! Você disse que, recentemente, seus parentes estiveram do lado de cá do balcão, em busca de atendimento pelo SUS. Apesar de imaginar que eles passam por todas as dificuldades que passamos para ter nosso direito à saúde atendido, acredito que aqui eles tiveram pelo menos um diferencial (que considero crucial nessa jornada diária nos hospitais): informação.

Informação se podiam ou não sair pra se alimentar. Se esperariam a manhã inteira, para depois descobrir que só seriam chamados depois do almoço. Se pegariam a senha errada e teriam que voltar ao final da fila. Se o seu atendimento seria transferido para outro dia, outro setor, outro hospital... Enfim, informação, que traduzindo quer dizer atenção, preocupação com o bem estar e até com a própria saúde.

Sim, porque esperar indefinidamente, sem nenhuma satisfação, nenhuma expectativa (ou expectativa em excesso), afeta nosso psicológico e até nosso físico.  É um sobressalto no peito cada vez que a maquininha apita uma nova senha ou que uma voz eletrônica quase inaudível, ou melhor, ininteligível, chama o próximo paciente, como um robô gago e gringo.

E o jejum, que nem é pra fazer algum exame (às vezes também é), mas sim pelo receio de perder a vez, vai começando a doer, a dar ânsia de vômito e de raiva. De ver que já deu 9, 10 horas da manhã e as atendentes começam a se revezar para o café, mas não dão sinal de vida pra você. E dá 11, meio-dia...

A pressão sobe, a calma matinal (que nos prometemos ao sair de casa) vai se dissolvendo, dissolvendo, a ponto de querermos enforcar a recepcionista, o porteiro, a enfermeira. Cada um que nos devolve uma resposta grosseira, um sorriso cínico ou mesmo uma crítica direta de que estamos “impacientes”, que temos que “esperar”, que “jajá” seremos atendidos ou, ainda, nos dá um conselho: “Vai aí em frente, toma um café e volta”. E, quando voltamos, nos diz: “Mas onde você estava? Te chamamos agora há pouco. Você perdeu sua vez!”...

Além de nos sentirmos impotentes, ganhamos o rótulo de incompetentes. O atendimento “humanizado”, amplamente divulgado, é mais simples de se alcançar do que vocês imaginam. Basta SE colocar no lugar de quem está ali. Ou pensar que é realmente um parente SEU. Você deixaria seu irmão sem comer, sem noção do que vai acontecer nas próximas 6, 7 horas? Sentado indefinidamente, olhando pra uma TV sem som, ouvindo conversas fúnebres, muitas vezes com dores e dificuldades motoras?

Quando se tem vontade, é simples e possível. Basta fazer uma triagem, distribuir senhas reais e objetivas, explicar o que vai acontecer e liberar para lanches e passeios, dependendo do roteiro. Para vocês também seria bom. Teria mais silêncio e pessoas mais tranquilas e alegres, assistindo o seu trabalho que, com certeza, também não é fácil.

A diferença é que vocês estão (contrariadas ou não) produzindo. Vendo o seu dia passar por alguma tarefa, conversa ou até discussão. Nós estamos “apenas” esperando. Esperar pode não ser tão ruim, quando é a fila do cinema, de um restaurante... Um filho, um amor, uma viagem, um trem. Sabemos que o que vem pela frente é prazeroso, amigável, afetuoso ou até aventureiro.

Difícil é esperar, dolorosamente, por algo doloroso. Uma injeção, um soro, uma conversa em ritmo frenético com o médico - que deveria ser nosso abrigo, consolo, desabafo. Mas eles têm umas 30 pessoas, por dia, pra atender e a conta não fecha. Mal dá pra tirar as dúvidas que, se não estiverem devidamente anotadas, ficam para a próxima “via crucis”.

Pare para ouvir os pacientes, sem um “não” pronto na boca. Com certeza, a mensagem bíblica falada ao microfone passará a ser um alento e não uma dissonância.

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: www.vozesdeminas.com.br/guiomarcastro

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