De vilão a vítima.

Não gosto de filmes violentos. Não consigo ver graça em nada que não tenha, pelo menos, a busca do belo, do etéreo, do emocionante. Acho incrível a gente pagar pra ver coisas que não queremos ver na vida real, sentir o que não gostamos de sentir. Os poucos que assisti foram por motivos alheios à minha vontade.

Na semana passada, achei que o filme sobre a Hebe Camargo estava em cartaz e dei de cara com três animações, um filme de terror, um nacional teen e dois protagonizados por vilões antológicos do nosso imaginário: Coringa e Malévola 2.

Esses dois já haviam começado e, mesmo assim, achei melhor opção que os outros... Apesar de adorar animações como Toy Story e Kung Fu Panda (quando meus filhos eram pequenos) e de não ter preconceito com as comédias quase românticas brasileiras. Malévola já tinha meia hora de exibição e, Coringa, 10 minutos. Quase impulsivamente optei por Coringa, mesmo detestando perder o início dos filmes.

Como era de se esperar, pela tendência psicodramática das últimas versões dos heróis dos quadrinhos (especialmente o Batman, do qual o Coringa é um dos principais antagonistas), o filme é bem profundo nessa questão, permitindo que o espectador tenha empatia com o personagem que, de vilão, chega a se tornar vítima.

Vítima das circunstâncias. Vítima dos problemas mentais, potencializados pela falta de assistência, de amor e de oportunidades. Vítima das próprias falhas de caráter, frutos de uma educação equivocada e da omissão paterna.

Todo esse ciclo de mazelas humanas, pelas quais o protagonista passa no filme, chega a ser mais violento que as cenas inesperadamente sangrentas que ele oferece. O drama psicológico do Coringa - pintado literalmente pelas tintas de palhaço e pelo sangue dos seus crimes - torna o filme de difícil digestão para adultos, o que dirá para as crianças.

SIM! Elas estavam lá... Várias, de várias idades, com variadas companhias “responsáveis”. Ao meu lado, na primeira fila (pois a sala estava tão cheia que tinha gente no chão), havia uma mãe com dois filhos pequenos. Um parecia ter nove e o outro eu fiz questão de perguntar, quando o filme terminou: SETE! Quando as cenas me impactavam, eu olhava pra o trio e, em algumas ocasiões, a mãe olhava o celular enquanto os pequenos não desgrudavam os olhos do thriller.

Na saída, ouvi um garoto de 13 anos comentar quantas pessoas o palhaço havia matado. Se ele teve a perspicácia de contar o número de vítimas, fico imaginando o que se passava na cabeça do garoto de 7 anos, cuja mãe respondeu a idade sem pestanejar, nem enrubescer.

Perguntei à mãe do adolescente se ela não achou o filme violento e ela disse que sim, que estava arrependida de tê-lo trazido e que não permitiu que ele viesse com a turma de escola, mas acabou fazendo sua vontade. Isto é, além de tudo, uma professora levou uma turma inteira de 12/13 anos para assistir ao filme, cuja indicação é 16 anos.

O curioso é que filmes com classificação indicativa de 18 anos só podem ser “liberados” para adolescentes a partir de 16 anos. Mas os recomendados para maiores de 16 podem ser vistos por crianças de qualquer idade, desde que acompanhados de um responsável. Aliás, só abaixo de 10 anos é que ela precisa estar acompanhada. De 10 a 15 anos nem disso precisa.

Fui descobrindo esse cenário aos poucos... Ao interpelar o pessoal da bilheteria sobre a avalanche de crianças que lotavam a sala do cinema, a resposta foi categórica: “responsabilidade dos pais". Não satisfeita, liguei no dia seguinte para o Conselho Tutelar, Vara da Infância, Promotoria da Infância e Juventude... Todos confirmaram que sim, é possível levar uma criança pra ver um filme pornográfico, se esse for o desejo do “responsável”.

As leis, que tanto nos protegem e aos nossos direitos (de ter acesso a uma obra cinematográfica, por exemplo), são as mesmas que às vezes nos tornam reféns. Eu queria fazer algo. Denunciar o cinema, os pais, a escola... Mas não pude fazer nada.

O filme é impactante porque, ao contrário da maioria da produção hollywoodiana, é verossímil, é real, é surpreendente, é corajoso. É um filme transformador, nos dois sentidos. Faz pensar, faz questionar. Mas, ao mesmo tempo, imprime imagens e sentimentos na nossa alma. E, pra isso, é preciso um mínimo de experiência de vida, de maturidade emocional.

Por uma triste coincidência, a principal manchete do telejornal, neste dia, era a de uma criança de 8 anos que achou uma espingarda debaixo da cama e atirou na própria mãe.

 

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: www.vozesdeminas.com.br/guiomarcastro

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