Ficção e ação.

Acordei cansada e suada. Tinha vivido uma longa saga durante a noite e salvei, na mente, um roteiro pronto de ação e ficção. Certamente ele se parece com algum filme que já vi ou livro que li, mas “as ideias estão no chão, você tropeça e acha a solução”, como diria Paulo Miklos.   

Aconteceram coisas antes que não me lembro, mas a parte mais interessante é quando estou fugindo, não sei porquê, e tanques (ou veículos não identificados que expeliam fogo) perseguiam as pessoas nas ruas e as matavam. Atropelavam ou as atingiam com grossos jatos de fogo.

Percebi que um deles vinha em minha direção e escapei do seu campo de ação. Subi uma montanha, junto com outros sobreviventes e cheguei a um local supostamente seguro, onde as pessoas eram acolhidas e cadastradas, por uma equipe treinada e aparentemente muito bem intencionada.

A sensação era “estou a salvo”. Como se o mundo lá fora tivesse acabado e o que sobrou estava ali, protegido e preparado para o “futuro” da humanidade. Depois de ter passado pelos procedimentos de acolhimento, fui encaminhada para uma sala onde algumas pessoas nos entrevistavam individualmente e, em seguida, aplicavam um medicamento injetável.

Quando percebi isso, me coloquei em situação de alerta (internamente, pra não despertar a atenção dos funcionários) e, ainda no sonho, me lembrei do livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Faz muito tempo que li, não recordo os detalhes. Mas me remeti à mesma atmosfera. Clima de manipulação, dominação psicológica e física (medicamentos), perda de consciência e do livre arbítrio.

Costumo não tomar remédio sem necessidade. Prefiro passar pela dor real, que pelo mal estar do efeito colateral. Não tenho medo de agulhas, mas de mascarar sintomas e causas. Quando a suposta enfermeira (ou seja lá o que for aquela criatura) veio em minha direção, tentei sair do seu foco, mas ela jogou a agulha enorme, como se fosse um dardo de tiro ao alvo, e acertou bem na minha testa.

Acho que essa ‘cena’ se originou, no meu inconsciente, de um provérbio muito comum na minha adolescência: “de graça até injeção na testa”. Mas era apenas a agulha, com uma abertura pra ser conectada ao corpo do utensílio. Me debati com a moça, que aplicou de qualquer maneira o líquido (sem adaptar corretamente). Coloquei a mão pra que ela não notasse a falha, que realmente passou despercebida.

Saí da sala, levada por um de seus ajudantes e, ao descer uma escada, fingi cambalear, pois notei que as pessoas saíam dali fracas e amparadas por eles. Depois, acordei exausta, nesse mundo mais ou menos real, de pandemia. Espero que ninguém copie meu roteiro ganhador de Oscar, antes de eu achar quem queira desenvolvê-lo, me conferindo os créditos da “sinopse”. 

Tenho um irmão fenomenal, roteirista premiado, talentosíssimo. Quem sabe, depois desses elogios públicos, ele me aceite como fonte de inspiração? Topa, Fernando Américo?

 

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