Filhas das filhas.

Um choro ancestral. Foi o que senti quando desabei, depois de uma cena especial na série “Filhas de Eva”. Eva não era a Renata Sorrah como pensei, ao ver as chamadas. Nem tinha mais de uma filha de uma mesma mãe, na obra. Eva é a mãe de todas nós. É nossa ancestralidade, nossa feminilidade, nossa dor, nossa angústia, nossa culpa, nossos sonhos, desejos e destemperos.

Eva é cada uma de nós ao amar, ao se desesperar, ao projetar no outro nossos ideais de abrigo, de força e de equilíbrio. É olhar pra tudo isso e se enxergar, enxergar outra mulher que está próxima de nós e, mesmo às distantes, ser solidária.

Sororidade. Palavra aparentemente nova pra uma coisa antiga e, muitas vezes, esquecida. Reuniões de mulheres sempre existiram. Desde a Idade Média, com as rotuladas “bruxas”. Nas tribos, para rituais de iniciação e de recolhimento. Hoje, muitas de nós se reúnem em grupos de oração, estudo, meditação... Dentro ou fora de alguma religião, ou mesmo misturando todas elas. Mulheres pastoras, mulheres líderes, mulheres enclausuradas, mulheres ‘mulheres’.

Como diria Vinícius: “Deve andar perto uma mulher, que é feita de música, luar e sentimento. Tão linda que só espalha sofrimento, tão cheia de pudor que vive nua...” O mesmo que escreveu o absurdo, muitas vezes real, do que se espera de nós: “Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher. Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”.

Sejamos. Tudo e mais um pouco. O que tivermos direito e o que não temos ainda. O que queremos e o que nem sabemos que queremos.  Que tenhamos acesso a tudo e a todos. Às lições que temos pra dar e receber. Às missões que devemos ou queremos cumprir. Sem cobranças, sem amarras. Sem e com sofrimento. Com ou sem prazer. Mas essencialmente livres.

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: vozesdeminas.com.br/voz/guiomarcastro

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