Nas nuvens.

Dia desses contei uma das muitas histórias que já vivi para o meu filho mais novo (a gente conversa por horas ao telefone) e achei que tinha falado demais. Ouvi “Não, adoro te ouvir, principalmente histórias assim, diferentes e reais”. Aquilo foi um carinho na alma, pois geralmente os filhos acham que falamos demais, que somos prolixos, invasivos, etc. E ele disse: “Escreve sobre essa aí...” E aqui estou eu.

Em 1997, inspirada por um CD que ganhei do pai dele, resolvi produzir o show “Um Índio”, em homenagem ao cantor Ney Matogrosso, que fazia 25 anos de carreira. Ele sempre foi um daqueles artistas que fazem a gente descobrir em nós desejos e talentos trazidos de outras galáxias, mas que já se aninhavam em nossos corações, desde a mais tenra infância.

Eu era criança quando o vi pela primeira vez, na TV em preto e branco, mas seu brilho saltava pra fora do aparelho e entrava fundo na minha essência. Assim como Gal, correndo de um lado pro outro do palco, berrando (sonora e afinadamente) “Meu nome é Gal...”. Assim como o sorriso largo e cabelo curtíssimo da Elis e a pele alvíssima da Rita Lee, na época dos Mutantes.

Então, redigi o projeto (amadora, mas inspiradamente). Coloquei objetivo, ideia, sinopse, repertório e até uma direção de arte incipiente, porém bem intencionada. Antes, entrei em contato com o figurinista Ronaldo Fraga, que tinha acabado de conhecer pessoalmente, para “encomendar” um vestido (que já existia na minha cabeça – pelo menos o estilo e o que queria passar com ele). Com isso, consegui também o fotógrafo que causou nosso encontro (nos conhecemos na casa do Nino Andrés) e a maquiadora dos seus desfiles naquela temporada, para produzir a foto que iria divulgar o show.

Reservei (com a ajuda de uma amiga) o melhor teatro do Sul de Minas e contratei uma banda de jazz para me acompanhar. Pra tudo isso, vendi o carro que ganhei do meu marido. Antes, perguntei se ele se importava, pois iria realizar um sonho e contar uma história idealizada por mim, do meu jeito. Era a “minha Brasília amarela”, que muito nos ajudou quando engravidei e tínhamos que pegar a estrada entre BH e Varginha, ainda sem duplicação. Quando ele comprou outra, branca, me deu a amarela.

Consegui divulgação na FM local, em troca da logo nos cartazes, e fui à TV, onde fazia trabalhos de locução e redação, pedir apoio também. O diretor gostou do projeto e resolveu divulgar, mas me impôs uma condição. O show era beneficente (para uma associação que assistia menores carentes) e ele sugeriu que eu convidasse alguns deles para me ajudar a panfletar, pois a cidade tinha histórico de ter um público minúsculo em shows de artistas consagrados, como Gilberto Gil. Lotava apenas os sertanejos. Topei e fiquei de conversar com o responsável pela instituição.

Depois de acertar tudo por telefone, marcamos um encontro no principal hotel da cidade, pra entregar os panfletos e acertar detalhes. As crianças já viriam com ele, pois a associação ficava numa cidade próxima. Na noite anterior, tive o que se conhece como “desdobramento”. Uma experiência fora do corpo, durante o sono, onde vi meu filho mais velho conversando com o pai dele (eles sempre dormiam mais tarde). Não posso afirmar que foi realmente esse fenômeno, até porque os estudos sobre o mesmo não têm respaldo científico. Bom, que seja então um sonho diferente, muito forte, onde eu tinha consciência plena e que me impactou profundamente.

Na sequência do sonho, eu não continuei a “voar” sozinha. No próximo instante, eu estava dentro de um carro conversível, em pé no banco do carona, e meu marido dirigia o carro, entre as nuvens, sobre uma estrada de terra, numa reta sem fim, com árvores enormes em ambos os lados. Um sol maravilhoso nos banhava e a sensação era de plenitude. Ele estendeu a mão e segurou firme a minha. Lembro de estar primeiro insegura e depois forte, ereta, feliz. Sua mão me dava confiança e me transmitia: “vá em frente”, “não desista!”

Acordei às 5 da manhã, fui meditar junto à natureza e me preparei para ir ao hotel. Cheguei mais cedo e a moça da recepção sugeriu que eu subisse. Impelida por uma intuição fortíssima, segui seu conselho e fui até o quarto do senhor Júlio (vou chama-lo assim pra preservar sua memória, pois já faleceu). Ele abriu a porta, sonolento, e disse balbuciando pra eu espera-lo no salão (onde servem o café da manhã). Pedi mil desculpas e me retirei sem conseguir fita-lo, envergonhada pela invasão.

Desci e me dirigi ao salão, onde fui orientada a me servir, enquanto aguardava. Comi um pãozinho com café e, quando fui me servir de uma fruta, olhei para a recepção e o vi saindo, xingando a recepcionista em outra língua (ele não era brasileiro) e deixando o hotel, completamente descontrolado. Não havia ali nada do “guru” de muitas pessoas da cidade, benfeitor e equilibrado. De longe, ele me lançou um olhar fulminante e saiu.

As pessoas ao meu redor pareciam não ter visto a cena ou não se afetar por ela. Fiz o mesmo. Acabei de pegar o mamão a partir do mesmo gesto interrompido. Uma calma sobrenatural me acometeu. Nenhum sentimento ruim, nenhum pensamento ruim. Incrivelmente, eu não havia sido influenciada em nada pela postura, no mínimo, estranha do Júlio. Depois de saborear calmamente o desjejum, agradeci e saí do hotel como se nada tivesse acontecido. Apenas me desculpei com a recepcionista, que me disse pra ficar tranquila.

Até chegar em casa, fui digerindo o que aconteceu e repassando nosso encontro. Notei que ele estava de cuecas (ou algo parecido), sem camisa. Na cama, perto da porta, deu pra ver um pé. De criança. Na hora não achei nada de mal, pois ele tinha trazido os jovens para ajudar na panfletagem. Mas sua atitude me fez questionar tudo: a idoneidade da instituição, sua relação com os protegidos, tudo. Nem me sinto no direito de dizer tudo que pensei, pois seria leviano da minha parte.

Fato é que ele me mandou um recado: que não queria o dinheiro proveniente da renda do show, que seus pupilos não trabalhariam na divulgação e mais: se eu quisesse realmente ajudar a associação, eu não teria produzido um show e sim doado o carro a eles. Só pude rir dessa afirmação, pois ele também era professor de teatro e, claro, sabia que a arte não transforma apenas quem cria, mas quem recebe, assiste. A arte alimenta, nutre espiritualmente, promove o conhecimento e oferece bens imateriais e intangíveis. Fazemos arte não para sobreviver, para existir.

Logo em seguida, entendi definitivamente o propósito do sonho, desdobramento, seja lá o que for. Tinha acordado diferente: intuitiva, calma e surpreendentemente equilibrada, o que me ajudou a reagir bem (ou não reagir) ao evento no hotel. Mas, ao contar o fato ao meu marido, questionei se deveria desistir do show e ele disse: “Não, não vai desistir não.” E me apoiou incondicionalmente. Na mesma hora, lembrei da sua mão segurando a minha, dentro do carro, e eu de pé, plena, como num palco.

Corta para palco de verdade, show finalizado, sonho realizado, adrenalina da conquista e gratidão, muita gratidão pela mão, carro, apoio, filhos e tudo mais que esse homem me deu na vida.

 

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: vozesdeminas.com.br/voz/guiomarcastro

 

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